Pessoa… ou anónimo?

Que querem os homens? Clonagem, aborto, excedentes de células embrionárias, fecundação assistida… Mas será mesmo a Humanidade a querer estas coisas? A ciência de que precisamos, para debelar as complicadas doenças dos nossos dias (criadas também por nós!), para dar às pessoas qualidade de vida, para aumentar a longevidade… precisa de entrar por esses meandros de pretensões criadoras, sem respeito pela própria ordem biológica?

É claro que, a par com uma investigação humanista, séria, que se maravilha com o mistério da vida e a deseja compreender cada vez mais profundamente – o que é legítimo – pululam, como cogumelos, núcleos de “iluminados”, que desejam “encurralar” Deus na insignificância, “libertar” a pessoa humana de todas as “crenças” que lhe tolham os horizonte, não produzindo mais do que uma mentalidade e opinião pública destrutora da mesma pessoa humana, pois a reduz a material de laboratório, utilitarista e descartável.

É o desespero de se não reconhecer como criatura, grato pelo dom magnífico da vida e do mundo, cuja responsabilidade de aperfeiçoamento nos cabe. É a raiva de querer dissecar o corpo e a alma, é a paranóia de querer reduzir o que somos às combinações bioquímicas, retirando-nos a capacidade de nos ultrapassarmos pelo pensamento, pelos afectos, pelos sentimentos, pelas intuições…

O Poeta da vida era mais um cadáver na sala de anatomia, exposto ao bisturi dos alunos e aos comentários “sábios”, mas desumanos, dos professores. Não fora a resistência persistente do jovem caloiro, obcecado em descobrir que vida estava por trás daquele corpo gélido, e nunca teriam descoberto que, afinal, fora o grande mestre dessa mesma escola de medicina.

Foi preciso entrar no mundo dos psicóticos, fazer empatia com os sem abrigo, para descobrir que, naquele suporte material agora cadáver, vibrou muita vida, passou muita ciência, misturaram-se muitos sentimentos, pairaram muitas angústias. Daquelas mãos saíram muitas intervenções cirúrgicas que deram vida; daquela cabeça, jorraram torrentes de formação para muitos daqueles que, agora, o dissecariam como anónimo.

Leiam a Saga do Pensador, de Augusto Cury. Descobrirão, com certeza, que o ser humano não se esgota na sala de anatomia, nem no mais sofisticado laboratório. Aprenderão que mesmo os desarranjos biológicos e psicológicos são portadores de imensas surpresas positivas – formas ricas, mesmo superiores de vida!

Perceberão, seguramente, que a vida humana, mesmo morta, dá muito mais lições do que as de anatomia. E talvez comecem a respeitá-la de outra forma, como os colegas e mestres do jovem estudante! Pode mesmo acontecer que se convençam de que vale a pena servir a vida, libertando-a, em vez de a manipular.