Planta de Aveiro do século XVIII ajuda a compreender a evolução da cidade.
Na Biblioteca do Museu de Aveiro existe uma planta da cidade, de autoria anónima e executada possivelmente entre 1770 e 1775, peça bastante interessante, não só pela sua beleza (ainda que algo danificada) mas, e sobretudo, pelas informações que presta e por servir de base a imensas plantas topográficas posteriores.
Numa das faces, o documento apresenta uma planta topográfica do núcleo urbano de Aveiro, não só na área situada dentro das muralhas e da zona da Beira-mar, mas também de partes então distantes, como Sá, Barrocas e, do lado oposto, Alboi, Baixa de Santo António e Igreja de Santo António. Na face oposta, o documento mostra um “retrato” de como era Aveiro nessa época, onde sobressaía a torre da Igreja de S. Miguel e as muralhas.
Na grande maioria das cartas topográficas posteriores, mesmo que baseadas nesse documento original, a zona da Baixa de Santo António é praticamente cortada logo após a muralha, tal como a então Rua de Santo António (actual Rua Homem Cristo Filho). Por isso, nessas plantas não surge o jardim, em forma de cruz e com chafariz (?) no centro, anexo a uma casa nobre, onde funcionaram serviços do Ministério da Agricultura, edifício demolido quando da abertura da Avenida Artur Ravara. Se a avenida passou sobre a parte frontal desse secular imóvel, na zona traseira está agora a ser erguido um conjunto imobiliário.
O jardim deveria ser imponente para a época, uma vez que nessa planta só estão “retratados” dois jardins, esse e o que se supõe ter pertencido ao palácio da Marquesa de Arronches (próximo da actual Escola Homem Cristo).
Sobre a casa e o respectivo jardim pouco se sabe. Em meados do século XIX, naquela zona, essa casa era o último edifício da cidade, encontrando-se do lado oposto do Campo de Santo António (actual Parque infante D. Pedro) o conjunto religioso formado pelo convento e igreja de Santo António e pela capela de S. Francisco.
Referindo-se a esse imóvel, num artigo intitulado “Memória de Aveiro, no século XIX”, publicado em 1940, no volume VI do Arquivo do Distrito de Aveiro, José Ferreira da Cunha e Sousa escreveu: “esta casa pertencia a um morgado da serra, por apelido Soares de Albergaria, de quem se contavam muitas façanhas, como jogador de pau nas feiras e arraiais, que ele às vezes varria completamente; estava em parte desmoronada e desabitada, mostrando assim pertencer a um morgado rico. Foi afinal comprada pela viúva Barbosa, da Praça, que a reedificou e que pertence hoje, se não me engano, ao Sr. Dr. António Emílio de Almeida Azevedo”.
Por sua vez, o Padre João Vieira Resende, na “Monografia da Gafanha”, escreveu que essa casa pertenceu a Fernando José Camelo que, em testamento datado de 14 de Maio de 1792, a deixou à sua mulher, D. Maria Eufrásia Soares de Albergaria.
Fernando José Camelo era neto de João Ferreira da Cruz, que instituiu Morgado na Quinta e Castelo de Vila da Feira, mais precisamente na capela de Nossa Senhora de Monserrate, na Quinta de Ribas-do-Castelo, o qual possuía propriedades “nos distritos de Lisboa, Santarém, Coimbra, Leiria, Viseu, Porto e Aveiro”. João Vieira Resende acrescenta que “propriamente, na então vila de Aveiro possuía vários palácios e casas em Sá…”. O filho deste, Francisco António Camelo, comprou a Luís da Gama Rangel de Quadros e Maia vastas propriedades na orla da ria, entre os estaleiros da Gafanha da Nazaré e a Mota da Gafanha da Encarnação, propriedades que deixou ao filho Fernando José Camelo.
Numa pesquisa arqueológica efectuada há alguns anos nessa zona foram encontrados vestígios arqueológicos com algum interesse, nomeadamente cerâmicas, possivelmente datadas dos séculos XVI ou XVII, com características idênticas às encontradas durante as escavações arqueológicas realizadas no Verão de 2010, no espaço exterior nas traseiras da vizinha igreja de Santo António, ainda que não tenham sido detectados vestígios de ruínas. C.F.
Achados “excepcionais” nas escavações do largo das Igrejas de Santo António e de S. Francisco
Os resultados da prospecção arqueológica no conjunto monumental da Igreja de Santo António, da Capela de S. Francisco e da Casa do Despacho, em Aveiro, são “excepcionais em termos de compreensão da produção cerâmica nos séculos XVII e XVIII, nomeadamente no que se refere à produção da cerâmica do açúcar”, como realça Paulo Morgado, geólogo e geoarqueólogo responsável e coordenador geral da intervenção arqueológica efectuada naquele espaço.
Esses achados foram postos a descoberto nas escavações realizadas no espaço exterior traseiro da Igreja de Santo António, em finais do Verão de 2010. Para além das escavações, foram realizadas prospecções geofísicas, tanto no exterior como no interior dos dois templos, trabalhos que deverão ser concluídos com escavações no adro fronteiro da Igreja de Santo António, local onde as sondagens apontam para a existência de sepulturas.
Actualmente em fase de estudo em laboratório, esses achados arqueológicos podem, no dizer daquele geoarqueólogo, ajudar a conhecer não só a história daquele conjunto monumental mas também de como seria um “estaleiro de obra” no início do século XVI e alguns objectos do quotidiano dos “pedreiros” e dos habitantes locais de então. Podem também contribuir para o estudo da produção de cerâmica e de azulejo em Aveiro.
O trabalho arqueológico insere-se no projecto de reabilitação daquele conjunto monumental que a Câmara Municipal de Aveiro aprovou no âmbito do Parque da Sustentabilidade.
