Páscoa, Ressurreição da carne Vai-se tornando vulgar ouvir, até da boca de pessoas mais avisadas, afirmações semelhantes a esta: «Na próxima reencarnação, farei isto ou aquilo…», como se se tratasse de uma convicção absolutamente consequente com a fé cristã partilhada pela maioria dos portugueses.
Contudo, só por distração se pode pensar assim.
Na verdade, importa, antes de mais, observar que pode estar na origem desta confusão que entende que a reencarnação seja coerente e compatível com a fé cristã, a afirmação da encarnação de Deus em Jesus Cristo. Porém, só nos termos há proximidade, pois falar da encarnação de Deus é dizer que Deus assumiu a carne humana, mas tal facto operou-se uma só vez e de forma irrepetível, conteúdo que se opõe, de imediato, à circularidade e repetibilidade da fé na reencarnação.
Comecemos, pois, por afirmar que a reencarnação é a convicção de que um mesmo princípio espiritual possa assumir repetidas vezes uma condição corporal. Em tal convicção, a corporeidade (o corpo) é um elemento estranho à própria identidade. É-lhe não fundamental.
Ora, um dos traços mais marcantes da fé cristã é, precisamente, a valorização da corporeidade, do corpo, da presença na História. É, precisamente, isso que se afirma na encarnação de Deus. Deus encarna porque o corpo é parte da definição de cada ser humano. O corpo enquanto condição de presença junto do outro é elemento definidor do que se é.
Curiosamente, os que afirmam a reencarnação com total tranquilidade esquecem dois dados relevantes:
– em primeiro, que a fé na reencarnação nasce no contexto oriental, por influência, primeiro do Hinduísmo, e assumida, posteriormente, pelo Budismo. Por isso, estranha, exógena ao Cristianismo.
– em segundo lugar, que um dos primeiros «combates» dos primeiros cristãos foi, precisamente, contra as correntes gnósticas, que desvalorizavam o corpo e que lhe atribuíam, inclusivamente, a responsabilidade pela origem do mal. O cristianismo combateu esta convicção e, através de figuras como o grande Santo Ireneu, vincou a importância da valorização da condição corpórea de cada um. É que, com efeito, o reconhecimento da corporeidade é a garantia de que a liberdade tem sentido, que a vocação é pessoal e única, que o amor de Deus é por cada um e que a História não é uma eterna repetição do mesmo, mas um caminho para a eternidade. Mais ainda, mesmo para os que possam não reconhecer a relevância desta discussão teológica, é a afirmação da corporeidade que permite reconhecer a bondade da sexualidade humana, a virtualidade do conceito de progresso e a possibilidade de se descobrir a riqueza do mundo, através das conquistas da ciência. É, ainda, a garantia de que o corpo é, também, um lugar ético, pressuposto tão importante, por exemplo, para a bioética, em que o corpo deve ser tratado como parte da identidade de cada um e não como um elemento estranho ao que se é. Tudo aspetos que a reencarnação desvaloriza.
Talvez, afinal, valha a pena interrogarmo-nos, sempre, sobre o sentido das palavras para que elas não neguem os conceitos que por elas pretendíamos transmitir.
