“Política, economia e sociedade”

Questões Sociais Segundo o economista e politólogo, Joaquim Aguiar, a actual crise financeira implicou o regresso da «economia política que articula sempre os três vectores do triângulo: política, economia e sociedade» (Cf. «Público 2, de 27 de Outubro). Na verdade, estas três palavras contêm a chave da resposta à crise. O vector político funcionará a contento, na medida em que o Estado disponha de poder soberano, e adopte medidas justas. O vector economia funcionará a contento, na medida em que seja promotor do trabalho e de rendimentos justos. Por sua vez, o vector sociedade também funcionará a contento, na medida em que assuma as suas responsabilidades e beneficie de protecção social justa. Infelizmente, não é provável que estas condições se verifiquem no futuro: os Estados encontram-se limitados por interesses nacionais e internacionais, e pelo próprio mercado negro; a economia tende para a concentração de riqueza e de rendimentos; e a sociedade orienta-se mais pela competição do que pela solidariedade.

Não nos esqueçamos de que esta não é a primeira grande crise económica: os economistas assinalam várias, desde o início do século XVIII. Muitas delas originaram melhorias significativas no funciona-mento do sistema económico e no bem-estar social; porém, nunca foi vencida a propensão para a permanência das desigualdades sociais gritantes, do desemprego e da pobreza. Muito provavelmente, os Estados não dispõem de força para inflectir esta tendência, mesmo admitindo que todos possuem as melhores intenções e capacidades. A correlação mundial de forças não parece favorável à promoção universal da ética e da legalidade.

Premonitariamente Paulo VI perguntava, em 1967: «Quem não vê a necessidade de se chegar (…), progressivamente, ao estabelecimento duma autoridade mundial, em condições de agir eficazmente no plano jurídico e político?» («Populorum Progressio», nº. 78). Esta pergunta é tanto mais significativa quanto se encontra na sequência do magistério de João XXIII e do Concílio Ecuménico Vaticano II («Gaudium et Spes») e coincide com as posições assumidas por outras entidades.

Conforme já foi assinalado em artigo anterior, não têm faltado abordagens ideológicas da crise financeira: uns defendem a falência do capitalismo; outros entendem que ficou posta em causa a social-democracia e a democracia cristã; e também há quem entenda imperioso o «regresso» do marxismo… Todas estas posições merecem atenta ponderação; no entanto, mal iríamos nós se os esforços para a saída da crise tivessem como centro as lutas ideológicas e respectivas dicotomias, e se desviassem da procura de soluções consistentes. Impõe-se, particularmente, que seja assegurada a articulação acima referida entre política, economia e sociedade.