Política paralela?

Questões Sociais Assim como existe a política própria dos órgãos de soberania, dos governos regionais, das autarquias locais, dos partidos políticos e de povo eleitor, existe uma outra cujos agentes e atividades não se encontram previstos, expressamente, na Constituição da República. As diferentes manifestações públicas, realizadas nos últimos tempos, deram mais visibilidade a estoutra política e deixaram bem patente a sua força.

Nesta política, tal como na economia paralela, há que distinguir a informal e a subterrânea: a primeira, ao contrário da segunda, não se situa na ilegalidade. A sua consagração, no nosso país, é tão forte que a generalidade dos grandes meios de comunicação social e dos comentadores consagra as manifestações como expressivas da vontade popular; entende mesmo que o Governo, a União Europeia e a «troika» deveriam obedecer-lhes, sob sob pena de perderem legitimidade. Pelo contrário, outras correntes de opinião, mais difusas e menos mediatizadas, veem as manifestações com muitas reservas: entendem que a sua legitimidade se situa num plano diferente da dos partidos políticos; denunciam, nelas, a falta de propostas consistentes para a solução dos problemas do país; relevam, hoje, ainda mais esta falta porque, entre os manifestantes, se encontram pessoas com elevados níveis de escolaridade; e alertam para o facto de os rendimentos de muitos manifestantes estarem a ser garantidos, precisamente, pelas entidades contestadas – o Governo e a «troika».

Qualquer que seja a posição tomada perante esta realidade tão expressiva, justifica-se um grande esforço de integração dos diferentes tipos de política; justifica-se, em particular, relevar a democracia representativa e a participativa, não como paralelas mas como complementares e convergentes. São comuns, nelas duas, a origem – que é a vontade popular – o dinamismo fundamental – que é o exercício da liberdade – e o fim último – que é o bem comum (continua).