Poço de Jacob – 119 Este nome de um país muito conhecido, que também é nome de mulher, significa: “terra onde Deus habita”. Sem dúvida que o nome está bem atribuído, pois quando podemos estar na Polónia, sem sermos turistas de grupo mas residentes na casa de alguém, no meio das pessoas e no seu dia a dia, vemos que Deus habita na Polónia. Claro que Ele está em todo o mundo e isto é um modo de expressão.
Eu tenho lá a única pessoa do mundo, depois da minha família direta, que posso dizer ser meu amigo como alma gémea. É uma sorte, pois a Bíblia diz que quem encontra um amigo encontra um tesouro. E eu encontrei. É só esse de verdade, mas, para mim e para ele, basta. Com ele tenho aprofundado os mistérios da vida e da fé e tenho a possibilidade de viver na Polónia, sempre que posso, como em minha casa.
Povo lindo, como todos os povos. Com particularidades, como todos os povos. Com uma história singular, como todos os povos. Mas não conheço povo mais parecido com o bíblico do que este nobre povo polaco. Ali se sente Deus a falar através das pedras. Não que todos creiam ou sejam féis. São como todos os povos… Mas têm uma característica bíblica saliente e talvez única no mundo: Sabem guardar a memória. A dos seus antepassados. A da sua história imensamente atribulada e cheia de massacres e mártires. A sua vocação judia é salientíssima até hoje – basta lembrar como o polaco beato João Paulo II falava dos seus amigos judeus de Wadowice. O modo como continuamente renascem das cinzas. Como lutam pelos seus ideais de povo e de nação. Como lutam pelo seu território, continuamente cobiçado por povos de todos os lados da geografia. Como o seu território, rico de tudo, desde a agricultura até os minerais, é defendido com o derramamento de sangue. O orgulho que têm em se apresentar no mundo como polacos, os habitados por Deus… sem vergonha da sua cultura, língua, história e erros.
Povo que se reconstrói a partir das suas derrotas e que ostenta a sua bandeira branca e vermelha que um dia apareceu em forma de dois raios no Coração de Jesus quando falava com Faustina Kowalska, em clara alusão ao sangue e água que brotavam do Coração amorosamente trespassado do Salvador, ou do peito de Maria, em forma também de Águia, quando a nação desapareceu do mapa sob o domínio napoleónico e Maria interveio para lhes dar a nacionalidade nas pouco conhecidas aparições de Lichen.
Mas o que me impressiona nesta terra do meu grande e único amigo verdadeiro é quando pelas cidades e aldeias eu descubro uma placa aqui e outra ali ou as centenas que decoram Varsóvia e Cracóvia. Cada uma lembra que aqui caiu aquela pessoa ou aquele grupo, vítima do nazismo ou do comunismo ou de outros momentos da história, por terem simplesmente existido como judeus ou lutado pelos ideais da sua nação, políticos ou religiosos. Por vezes é só uma pessoa… mas está ali recordada, pois a memória não permite que o indivíduo se confunda com as massas e o seu sacrifício tenha sido em vão. Faço questão de ler cada uma. Pedir explicações. Rezá-las. Comover-me com aquela vida ceifada ali, naquele sítio onde os seus olhos se fecharam para este mundo. Já me ajoelhei a beijar o chão quando a memória dói mais… Quanto vale uma única vida!
Auschuwitz é o campo alemão em terra polaca que mais nos faz chorar a memória. E na mais pequena aldeia, ali está a memória, sempre iluminada pelo rosto rasgado pela espada dos Tártaros, dessa Virgem Negra dos Montes Claros que se chama Czestochowa, e hoje, também, por centenas de milhares de lembranças em placas e monumentos, alguns grandiosos, do seu Papa que marcou a história do mundo de modo singular e a minha história e a de muitos de nós, pois o ouvimos, o contemplamos e fomos abençoados por ele, o grande João Paulo II.
Acredito num povo que garante sua memória e que no bem e no mal a vive, com outra particularidade: a história passou, não a esquecemos, mas perdoamos ou desculpamos, com todo o nosso coração. O meu grande amigo, o P.e Francisco Gielczowski, ensinou-me com sua vida e ensina-me o valor da memória, não como algo que nos leve a remoer o passado por saudosismo ou revolta, mas como estímulo para um presente lindo e um futuro cheio de esperança, sempre marcados pelo olhar doce da Mãe judia de Jesus Salvador e pelo perdão que faz com que a “memória esqueça” o que nos impede de andar para a frente. Por isso, a Polónia é e sempre será a terra onde Deus habita!
Vitor Espadilha
