Por que não há-de ser sempre assim?

E se fosse sempre assim? Cristãos, independentemente de serem católicos, metodistas ou ortodoxos, a rezarem em conjunto, a ouvirem os seus pastores, a partilharem um chá e uma bolacha no final da celebração, sinais de fraternidade, sinais de um outro sinal – o Pão e o Vinho do Senhor da Vida, que as três comunidades cristãs celebram com gestos, palavras e rituais diferentes, mas por todos perceptíveis, remetendo para a mesma Ceia em que o Senhor se ofereceu.

Foi isso que aconteceu na noite de quinta-feira, 24 de Janeiro. A comunidade ortodoxa recebeu na sua Igreja de S. Nicolau, que outrora foi a capela católica do Hospital Psiquiátrico de São Bernardo, católicos e metodistas. Dois bispos e um pastor, dirigiram a palavra a todos e a comunidade respondeu como soube. Nem sempre as respostas saíram fluentes e uníssonas. Nem sempre os cânticos foram acompanhados por todos. Por vezes eram desconhecidos das outras partes. E algumas pausas pareceram demasiado longas no seguimento da celebração. Mas a verdade é que só estão juntos uma vez por ano. E sem dúvida que havia espírito de comunhão.

D. António Francisco, Bispo de Aveiro, lembrou Paul Wattson, um ministro anglicano com simpatia por Roma, que há precisamente 100 anos deu início aos encontros ecuménicos, nos Estados Unidos, mas sem católicos, que nessa altura não participavam no movimento ecuménico. Lembrou igualmente o padre católico Paul Couturier (falecido em 1953), que, dentro do catolicismo, fez da semana “pela conversão e regresso dos irmãos separados” uma semana de “oração universal dos cristãos pela unidade” (as citações são do teólogo Yves Congar). D. António Francisco manifestou a “esperança de um dia novo que há-de chegar”. Um dia de união.

O pastor Eduardo Conde, da comunidade metodista, sublinhou que o “apelo à unidade é mais do que uma missão da Igreja”. “É o seu cerne. A sua própria identidade”. “A unidade pode derrubar as realidades que geram a morte, a violência, a marginalização, o sofrimento”, disse.

Copresidiu à celebração, ainda, o Bispo Ilarion Rudnick, Ucraniano de origem, estudou em Tessalónica (Grécia) e nos Estados Unidos. É bispo de uma diocese turca, mas está proibido de lá entrar. Por isso, desempenha as funções de auxiliar em Portugal, que, com Espanha, para os ortodoxos é apenas uma diocese.

Perto do final da celebração, cada fiel acendeu uma pequena vela (de cera pura, vinda de um mosteiro ortodoxo da Ucrânia, como revelou ao nosso jornal um elemento da comunidade ortodoxa), que depois deixou a arder no queimadouro, tão típico da liturgia ortodoxa. A luz é um símbolo universal. E para as três confissões, a Luz das Nações é a mesma, é Cristo, “luz que brilha”, como se proclamou através do cântico metodista.

A partilha do chá e da bolacha – pequena amostra do ágape com que pode terminar uma longa liturgia ortodoxa – motivou um pequeno convívio, mesmo já no frio da noite, no exterior da capela, como aliás tem sido tradição nestes encontros em Aveiro.

Cristãos. Ortodoxos, metodistas e romanos, como alguns costumam dizer. “Nós também somos católicos” – disse um ortodoxo (dos 30-40 que quinzenalmente participam na liturgia na Igreja de S. Nicolau) para um católico, durante uma pausa da celebração. “Eu também sou ortodoxo”, respondeu-lhe o católico. Unidos uma semana por ano. Por que não há-de ser sempre assim?

J.P.F.