Porquê «FIlho do Homem», se Jesus não é filho de homem?

Perguntase Respostas* Os diversos evangelistas referem várias vezes a expressão «Filho do homem» sem nunca explicar o seu significado, o que nos leva a concluir tratar-se duma expressão perfeitamente entendida pelos seus leitores. E, neste caso, como em tantos outros, temos que recorrer ao Antigo Testamento e ao judaísmo em geral para tentar entender a expressão.

Duma forma geral, no Antigo Testamento, fora do livro de Ezequiel, a expressão «filho do homem» ocorre 14 vezes e indica simplesmente o homem. No livro de Ezequiel a expressão «filho do homem» ocorre 93 vezes, como fórmula introdutória duma comunicação divina, cujo significado e sentido é apenas ser humano, homem.

No livro de Daniel, a expressão aramaica bar ’enāsh («filho do homem») aparece em 7,13 pela primeira vez para indicar «uma figura semelhante a um filho de homem» (uma figura humana) a quem é dado poder eterno, glória e um reino indestrutível e a quem todos os povos servirão. Não se trata dum título mas duma comparação para descrever um ser celeste com aspeto humano. Por outro lado, o «semelhante a filho de homem» é identificado com o povo dos «Santos do Altíssimo» aos quais foi conferido o reino e o império, apresentando-se assim com um significado coletivo. Trata-se, antes de mais, de uma imagem que consubstancia a esperança futura de Israel de glória e poder depois do tempo de perseguição no reinado de Antíoco IV Epífanes e não de uma figura individual precisa.

A literatura apocalíptica judaica não bíblica, de estilo literário apocalíptico, retomou e reelaborou a figura humano-divina do livro de Daniel, apresentando-a com traços pessoais, ligando-a a outras imagens da tradição de Israel, tendo assim adquirido novas funções. O papel desempenhado pelo Eleito ou pelo Filho do Homem ultrapassa de longe a figura do livro de Daniel; enquanto, em Daniel, o personagem é em primeiro lugar um símbolo representativo duma multidão, intitulada «os Santos do Altíssimo», agora somos confrontados com um indivíduo com traços bem marcados, a quem foi dada toda a honra e glória e a função de julgar e castigar todos os povos inimigos de Israel.

Progressivamente, a figura do Messias foi sendo identificada com a figura do Filho do Homem, ser preexistente, celestial e dotado do Espírito, adquirindo assim um colorido que ultrapassa a simples descendência de David para restaurar o reino de Israel. Passa-se, desta maneira, a identificar o reino de Israel com o reino de Deus, mas sempre na perspetiva dum messianismo nacional e político.

É neste ambiente que Jesus (e também os evangelistas) se situa e vive. Por vezes, Jesus aplica o termo a si mesmo, durante o seu ministério público, no sentido de ser um homem, igual aos outros homens, uma referência à sua condição moral. Outras vezes, em sentenças dirigidas aos discípulos, diz que o Filho do Homem será entregue, com uma referência ao sofrimento, morte e ressurreição. Outras vezes ainda, Jesus usa este título evitando deliberadamente outros títulos messiânicos. Jesus teve o cuidado de não associar a sua pessoa às ideias e expectativas populares que iam na linha nacional, política e mundana. Se Jesus se apresentasse como um Messias terreno que sofresse a morte seria um escândalo para os judeus.

J. Franclim Pacheco

Na próxima semana: Sendo Jesus tão importante para a humanidade, porquê o silêncio da história acerca dele?

* Secção da responsabilidade do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro – www.iscra.pt)