Povoamento de Aradas começou há mais de 5.000 anos

Viagem pelo património de Aradas com a companhia de grande fu«iguras históricas da terra.

O povoamento das terras que hoje formam a freguesia de Aradas, no concelho de Aveiro, começou há mais de 5.000 anos, como referiu Paulo Morgado na palestra intitulada “Arqueossítio da Agra do Crasto”, que proferiu na edição de “Tardes com Cultura”, realizada no dia 5 de outubro, em Aradas.

Apesar de vários documentos, alguns datados do século XV, fazerem referência à eventual existência de um castro na zona da Agra do Crasto, só em 2003, foram encontrados os primeiros vestígios arqueológicos em terrenos que atualmente integram o campus da Universidade de Aveiro. Paulo Morgado historiou os trabalhos arqueológicos realizados no local, dando conta de alguns achados, entre eles uma ponta de seta em sílex e uma peça cerâmica que, pelas suas características e estado de conservação, é única em Portugal, peça produzida entre o terceiro e o quinto milénio antes de Cristo.

As pesquisas arqueológicas e os achados encontrados levam a concluir que a zona da Agra do Crasto foi um local habitado há pelo menos 5.000 anos. Paulo Morgado referiu que pelos achados arqueológicos e também pelo potencial histórico e arqueológico que o local possui, o arqueossítio da Agra do Crasto foi declarado sítio de elevado interesse arqueológico, ficando registado com o número 18957.

Paulo Abreu, diretor do Agrupamento de Escolas de Aradas, apresentou o resultado dos seus trabalhos de investigação sobre a localização da primitiva Igreja Matriz de Aradas, apontando o cabeço situado entre o Esteiro de S. Pedro e a Quinta da Boavista como o local da primitiva Igreja de S. Pedro e respetivo cemitério.

Para além de inúmeros documentos, alguns do século XIV, que aludem à existência de uma igreja nesse local, Paulo Abreu realçou que ainda há poucas décadas surgiam ossos humanos nessa zona, bem como pedras que não são originárias daí.

Próximo do local onde agora se ergue um monumento que assinala a existência da primitiva igreja passava uma estrada medieval de que ainda restam pequenos troços. Paulo Abreu diz ser uma ligação da Estrada Real a um porto existente no final desse cabeço. Também da Estrada Real, que passava onde está a velha ponte e seguia em direção a Aveiro, ainda restam vestígios.

Personalidades de Aradas

Na abertura da sessão, realizada na sede da Junta de Freguesia de Aradas, o autarca local, David Paiva Martins, sublinhou que Aradas foi concelho entre os anos de 1181 e 1836, apresentando dados sobre a evolução histórica e cultural da freguesia, bem como dando a conhecer alguns dos vultos recentes da sua história.

O historiador Amaro Neves evocou alguns dos mais relevantes vultos do passado de Aradas, nomeadamente Catarina de Ataíde, filha de Álvaro de Sousa (senhor de Eixo), mas que viveu num paço, que poderia ter existido em Aradas, propriedade do marido, da família dos Borges (com paço na Moita, Anadia), senhores de várias terras, incluindo este local da atual freguesia de Aradas.

Frei Pedro Dias, também conhecido por “Santo de Aradas”, o poeta Barbuda e Vasconcelos e o bispo Frei Manuel de Bulhões e Sousa foram outras três figuras de vulto apresentadas por Amaro Neves, autor das respetivas biografias, editadas em livro.

Amaro Neves aludiu ainda ao médico Brás Luís de Abreu, que o escritor Camilo Castelo Branco imortalizou no romance “O Olho de Vidro”.

Margarida Ribeiro, da Câmara Municipal de Aveiro, evocou o Conselheiro Joaquim José de Queirós e Almeida e sua esposa, Teodora Joaquina de Almeida, avós paternos de Eça de Queirós, bem como os liberais que protagonizaram a revolta de 16 de Maio de 1828 e que acabaram condenados à morte por ordem do rei D. Miguel, liberais que ficaram para a história como os “Mártires da Liberdade”.

As “Tardes com Cultura” são uma iniciativa da Associação de Defesa e Estudo do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro (ADERAV) e da Câmara Municipal de Aveiro que visa dar a conhecer a história e o património de cada uma das freguesias do concelho de Aveiro.

Cardoso Ferreira

Câmara continua interessada

na casa do avô de Eça de Queirós

A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Aveiro, Maria da Luz Nolasco, afirmou que a Câmara Municipal de Aveiro continua em negociações para adquirir a casa do Conselheiro Joaquim José de Queirós e Almeida e de sua esposa, Teodora Joaquina de Almeida, avós paternos de Eça de Queirós, casa onde o escritor passou alguns anos da sua infância, no lugar de Verdemilho.

Se a aquisição se concretizar, será reposta a traça arquitetónica do edifício, atualmente em avançado estado de degradação.

Num texto de 2007, assinado por Miguel Souto, realça-se o valor literário da casa: “Jorge Campos Henriques, ao escrever sobre as raízes de Eça, conclui que o solar é a «Ilustre Casa de Ramires», observando que o escritor, «curiosamente, deu ao solar de Gonçalo Ramires o nome de A Torre, precisamente o da quinta do solar de seus avós, em Verdemilho». O jornalista da Lusa refere ainda que o Conselheiro Queirós, liberal e um dos organizadores da insurreição de 16 de Maio de 1828, no Porto, teve de exilar-se em França e em Inglaterra. No regresso, após a vitória dos liberais, “foi deputado e ministro da Justiça, mas acabou por se retirar para Verdemilho, desiludido da política, tal como Afonso da Maia em “Os Maias”, para se dedicar à educação do neto”.