«P’ra viver há que ter jeito»

A árvore de Zaqueu* * «Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)

Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor. «Não queiras fazer num dia

O que para dois foi feito:

P’ra morrer, basta viver

P’ra viver, há que ter jeito…»

(Evaristo de Vasconcelos)

(O autor sabe bem o que diz – teve o grande jeito de ser padre jesuíta, notável psicólogo… e caminhar feliz para os 97 anos!).

A Mãe de Jesus tinha mesmo jeito para levar o filho! Até fez de conta que não se lembrava do que lhe tinha custado vê-lo a fugir de casa aos 12 anos, e da estranha resposta dele para se justificar, mais própria de um adolescente cheio de si. E agora, homem feito, volta a mostrar-se longínquo…

Mais tarde, quando ouviu que a sua mãe e irmãos o procuravam, respondeu (Mateus 12,46-50): «Quem fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe».

Não há lugar para ingerências familiares, quando pode ficar em causa o bem comum intimamente ligado ao «reino de Deus». Já Platão dizia que os governantes deviam ser os reconhecidamente «amigos da sabedoria» e não os «amigos» do dinheiro, do poder e interesseiramente “amigos” do seu pequenino grupo de aduladores…

No relato das bodas de Caná, é claramente destacado, pela positiva, o jeito singelo e feminino da Mãe de Jesus. A resposta de Jesus era corrente (e ainda é) para dizer que o assunto não lhes dizia respeito (o termo «mulher» não era depreciativo na cultura grega). Nem era o momento escolhido para agir nem o reino de Deus depende de conveniências pessoais, embora lhes possa dar resposta (como sucedeu aqui e em casos de curas) e esteja intimamente unido com o bem comum. Porém, as dicas que Maria deixou aos servos revelam plena confiança na bondade, inteligência e poder do seu filho. E simbolizando o plano de salvação de Deus e a supremacia da «boa nova» trazida por Cristo, o vinho novo era muito melhor do que o outro vinho! Para o autor do quarto evangelho, a dimensão simbólica das palavras e dos factos é fundamental: o que interessa são as ideias e valores veiculados nos factos descritos – e está em jogo sublinhar o sentido da missão de Jesus como «o Cristo – o Ungido, o Eleito – de Deus».

Mas também se fala, neste domingo, da «nova Jerusalém»: dela diz Isaías que se hão-de invejar a justiça e a glória. O termo hebraico traduzido por «glória» significa o «peso» de uma coisa, o seu valor real, a sua importância; o renome e a fama são apenas uma consequência. O termo «justiça» aplica-se a Deus como modelo supremo de toda a integridade; e aplica-se aos outros seres na medida em que estes reflectem a justiça divina. É esta a cidade humana «com que Deus quer casar»: uma cidade onde os habitantes se esforçam por melhorar os seus próprios dons, que, quanto mais diversos, maior riqueza total irão produzir (2.ª leitura).

Deus revela-se o maior fã possível do amor humano: trata essa «cidade» como a namorada que um dia há-de ser sua noiva (apesar de muitas «aventuras»… como podemos ler nos Profetas); e Jesus compara o reino de Deus à mais festiva das bodas (Mateus 22,1-14).

Curiosamente, é no mais espiritualista e místico dos evangelhos que a «vida pública de Jesus» começa na festa mais significativa da força de união e expansão do género humano. A abundância de vinho é, na Bíblia, símbolo de uma época florescente. E o vinho aparece no princípio e no fim (na última ceia): como símbolo estimulante da vida, da amizade e do amor, e da «destilação» de toda uma vida consagrada a abrir horizontes e a fomentar estratégias de paz e de alegria (ideias tão batidas como levadas pouco a sério), de uma cidade onde os seres humanos se sentem bem com Deus, e onde se podem reunir para lembrar, partilhando pão e vinho, o testemunho de sangue daquele que ficou na História como o Cristo de Deus.

Manuel Alte da Veiga