Questões Sociais O trabalho precário é uma realidade bastante debatida. Pelo contrário, pouco se fala da precariedade que afecta a própria empresa, embora seja muito estreita a relação mútua. A precariedade empresarial resulta de causas diversas. Registo apenas três: o mercado, o Estado e o trabalho. O mercado é a causa mais visível e generalizada; na verdade a falta de clientes, a sua insolvibilidade ou desonestidade e a perda de competitividade afectam muitas empresas, levando não raro ao encerramento. O Estado afecta a sobrevivência da empresa, através de exigências legais insuportáveis, bem como de fiscalizações intransigentes e da falta de regulação adequada, prejudicando especialmente as empresas que procuram actuar de acordo com a lei e a moral. O trabalho também contribui para a precariedade empresarial, sempre que, por exemplo, não existam trabalhadores com as qualificações e expectativas adequadas, ou prevaleçam relações conflituosas.
Em maior ou menor grau, todas as empresas são precárias; isso resulta da sua própria natureza, e tornou-se mais patente no quadro da globalização e da crise actual. É evidente que a empresa monopolista, ou fortemente implantada e competitiva no tecido económico, dispõe de muito mais segurança; mas não deixa de estar marcada pela precariedade.
Pode afirmar-se que, em última instância, a precariedade empresarial, tal como a laboral, decorre da própria contingência humana, isto é, da nossa não-divindade e correspondente falta de segurança absoluta na vida terrena. Por tal motivo, a gestão da precariedade é indispensável na perspectiva económico-humanista, assim como a respectiva ascese é indispensável na perspectiva religiosa. A esta luz, deparam-se três caminhos fundamentais a empresários e trabalhadores: a partilha de precariedades, em «comunidade de pessoas»; a «medição de forças», visando o entendimento; e a conflituosidade permanente, mais ou menos declarada. O primeiro caminho é, talvez, o que predomina entre nós; o segundo é o que prevalece na negociação colectiva; e o terceiro é típico do sindicalismo e do patronato extremistas. Por outro lado: o primeiro caminho congrega esforços porfiados na gestão da precariedade; o segundo, gere-a à beira do abismo; e o terceiro fomenta-a, tendendo para a destruição da empresa. Quais as perspectivas de evolução futura? Quais as opções das diferentes forças políticas, sindicais, empresariais e mediáticas? – Não existem respostas claras a estas perguntas. No entanto, parece que uma conflituosidade latente, difusa e com erupções perigosas vem corroendo as relações laborais e a realidade «empresa»…
