Poço de Jacob – 116 Cada mês do ano, como cada dia da semana, a Igreja, tradicionalmente, lembra algo do mistério de Cristo, seja em relação ao próprio Cristo, seja em relação a Ele através de Maria ou dos santos ou de outra realidade sobrenatural que nos ajude a viver a fé. O mês de julho é sempre o mês do Preciosíssimo Sangue de Jesus. Celebramo-lo sempre na Eucaristia de cada dia.
Também as tradições e lendas cristãs ajudam o Povo de Deus a atualizar o mistério, como as manchas de sangue no Sudário de Turim, no véu de Oviedo ou no tecido de Manopello, reconhecidos pela Igreja como objetos relacionados com a Paixão de Cristo. Também as suas imitações espalhadas pelo mundo, sobretudo na época medieval da chamada “invenção das relíquias”, pelo prestígio e dinheiro que, pela afluência de peregrinos, concediam às dioceses, à igreja ou ao santuário. É bonito percorrer a geografia das relíquias, sobretudo na Europa, embora existam em todo o mundo, como está a acontecer com o sangue de João Paulo II.
Em Bruges, Bélgica, às 15h de sexta-feira, de cada semana do ano, uma solenidade exuberante acontece numa singular capela, em que uma ampola com tecido embebido em sangue é colocada à veneração dos fiéis. Dizem que pertenceu a José de Arimateia e, como a maioria das relíquias, chegou até nós via Constantinopla e Cruzadas… Impressiona e comove. O sangue, diz a tradição, é o de Cristo recolhido durante a Sua Paixão.
Anualmente, também em Mântua ou Mantova, na Itália, duas ampolas que dizem ter pertencido a S. Longuinhos, o soldado que trespassou o peito de Jesus com a lança, e ali sepultado na catedral, são expostas solenemente e transmitida pela televisão, na Sexta-feira Santa. Mais lugares celebram coisas semelhantes. Mas, convém deter-nos no mais importante: Deus, antes da Encarnação, Puro Espírito, não tem sangue nem carne. Começou a ter quando o Filho se fez Homem. Adquiriu um corpo humano, uma alma humana, sangue humano, gerado no seio de Maria. O Novo Adão e a Nova Eva bem podiam dizer: “És carne de minha carne e sangue de meu sangue…” Sangue para ser derramado em sacrifício na imolação de vítima, no Alto da Cruz, para satisfazer, de modo definitivo o Pai, ofendido pelos pecados da humanidade.
O sangue de touros não podia remir os pecados, diz a sagrada Escritura. Então “preparastes para Mim um corpo… e eis que venho…”, diz a carta aos Hebreus, onde este mistério é desenvolvido. A sua doação atinge o seu ponto alto quando o seu Coração é trespassado. O coração é a sede do pensamento segundo a linguagem de todas as culturas e também do afeto. Pensei e guardei no meu coração… Amo-te amo com o meu coração, dizemos nós. Este Jesus que nos conhece com o seu pensamento, Ele sabedoria do Pai, ama-nos com o seu Coração, com a doação integral da sua pessoa divina, unido à sua natureza humana. A mente e o afeto dele para e por nós moveram-no a dar-se totalmente, em obediência ao Pai, por nós.
Nestas duas realidades, podemos dizer que se situa a pessoa inteira… Podemos dizer que ao dar-se dar a nós, Jesus é o Pensamento que nos ama e o Amor que nos conhece… Ressuscitado, não tem sangue. Ficou todo para nós, e continua a ser derramado, incruentamente em cada Missa que se celebra… O Sangue do Ressuscitado é o Espírito Santo, que circula nele, e dele em nós no mistério do Corpo Místico que é a Igreja. O Espírito que dá a Vida é o sangue e a seiva que alimenta a Igreja. Cristo é a cabeça e nós os membros animados pelo mesmo Espírito. Jesus Ressuscitado é assim o nosso Sol, a nossa Graça, que nos lava e purifica, tornando-nos mais brancos do que a neve, lavados, como diz o Apocalipse, no Sangue do Cordeiro, e conferindo-nos uma limpeza de alma mais forte que a “lixívia do lavandeiro”. Daí a nossa participação em Cristo ser simbolizada na oferta do seu Coração, de seu Ser, Deus e Homem, no sangue e na água, que brotam depois de o Coração Divino ter sido trespassado. São símbolos do Batismo, que nos confere o Espírito que dá a Vida… e da Eucaristia, que nos alimenta e sacia pela comunhão do seu Corpo e Sangue.
Não admira que a Igreja, depois de ter celebrado a Festa do Corpus em junho, reserve julho para contemplarmos o mistério inesgotável do seu Sangue, Sangue Preciosíssimo, que nos lava, nos alimenta e nos purifica.
Vitor Espadilha
