“Precisamos da História para nos compreendermos”

Professor José Mattoso no Centro Universitário O historiador José Mattoso esteve no Centro Universitário Fé e Cultura para falar do “lugar da história”. Especialista em história medieval, coordenou a monumental “História de Portugal”, do Círculo de Leitores, e construiu ao longo de décadas uma historiografia que, “como poucas, tem contribuído para compreender a história do Portugal que somos”, nas palavras de Teresa Roberto, professora da Universidade de Aveiro, que moderou o encontro.

José Mattoso, um dos poucos autores portugueses com mais de um milhão de exemplares das suas obras vendidos, passou uma temporada no Timor pós-independência, onde ensinou História da Igreja e organizou os arquivos nacionais.

No encontro de 4 de Junho, no CUFC, o historiador deixou transparecer uma sabedoria de inspiração cristã que mais terá impressionado a sala cheia do que os celebrados conhecimentos de história. Mas esses são mais fáceis de sintetizar nestas páginas. J.P.F.

Historidade

A condição humana depende do tempo. Deus relacionou-se e revelou-se na história. Não há doutrina sem história. Encarnou, viveu e morreu no tempo em que era governador da Judeia Pôncio Pilatos. A historicidade é importante para compreender o modo como as coisas se relacionam.

Compreender a humanidade

A história é uma selecção de factos susceptíveis de nos darem uma explicação acerca dos acontecimentos. A sua função principal é compreender o passado colectivo e não só o passado individual e dos pequenos grupos. A compreensão do passado, a História, serve sobretudo para percebermos o que é a humanidade, mais do que a Filosofia, a Sociologia ou a Antropologia.

Imprevisibilidade

Um acontecimento é histórico na medida em que influencia factos, provoca alterações. Na História, o fundamental é a evolução. A imprevisibilidade da história é uma das componentes mais interessantes. O marxismo tem uma interpretação determinista da história: interpreta a história à base de leis pré-determinadas, as Leis Históricas. Nos anos 90 surgiu a ideia do “fim da História” (Francis Fukuyama), mas a partir de então surgiram muitos factos que estão a mudar o curso da história.

Origens da História

A História tem duas origens: a grega e a bíblica. Na Grécia, Heródoto narra a história para que os seus leitores saibam que há outras formas de governo dos povos para além da democracia.

Na Bíblia, o passado é contado (a sucessão Adão, Babel, Noé…) para que saibam por que é que as coisas correm mal.

Na Idade Média e até ao séc. XVIII, a História está ao serviço dos reis, para mostrar a legitimidade da transmissão do poder. Encontram-se na História vestígios de Deus e dos milagres.

Com o Protestantismo (séc. XVI), surgem critérios para estabelecer a veracidade dos documentos que Protestantes e Católicos usam para justificar as suas pretensões. É necessário identificar os textos falsos, pelo que se desenvolvem as técnicas documentais.

No séc. XIX, a ideologia do progresso tomou conta da História, imaginando sucessivos estádios de sucesso, até à fraternidade universal. No séc. XX, o pós-modernismo estilhaçou todas as teorias anteriores. “A verdadeira vida não é, afinal, um absurdo? Há algum sentido na história?” – ficaram estas interrogações.

É mau decorar?

As crianças até aos 12-15 anos não compreendem os processos políticos e económicos da história. Mas podem compreender a história narrativa, com as suas personagens e feitos. Saber de cor a sucessão dos reis e os seus cognomes foi considerado “infatilista”, mas permitia ter uma escala da sucessão no tempo, que era o essencial. Os cognomes eram um símbolo, um reflexo do que os governantes tinham sido em vida. Hoje, parece que, afinal, saber de cor é um processo bastante razoável, desde que isso não apareça como sendo tudo.

Ideologia e engrandecimento da nação

Durante muitos anos tivemos uma história ideológica que dizia que “Portugal não é um país pequeno”. Era a resposta a um complexo de inferioridade atiçado pela Geração de 70 [pensadores do final do séc. XIX, que consideravam que as nações ibéricas estavam em decadência; neste grupo incluem-se, entre outros, Antero de Quental, Eça de Queiroz e Oliveira Martins]. Essa história glorificava os Descobrimentos e batalhas como a de Aljubarrota. Ora, estes acontecimentos devem ser estudados por si mesmos e não por terem sido gloriosos. Não podemos mitificar. O mesmo é dizer que Afonso Henriques não tinha em mente um grande país. Queria simplesmente ser independente de Leão, na sua concepção feudal de poder. O “Milagre de Ourique” surgiu nos documentos apenas 300 anos após a suposta realização (com D. Afonso Henriques) e deixou de fazer parte da historiografia com Alexandre Herculano.

História local

Há um papel importante a ser desenvolvido pela história local, através de monografias que não sejam apenas uma colecção de glórias da terra como as igrejas, os médicos, os ilustres, com pouca orgânica e sem sequência interna. Vivo em Carvoeiro (Albergaria) e pensava que o nome da terra estava ligado ao fabrico do carvão, de algum modo uma profissão humilde. Mas uma breve investigação permitiu verificar que a pequena povoação vem dos tempos de D. Afonso II e que por ali passava uma importante via entre o Norte e o Sul.

Feiras medievais

As feiras medievais [que surgem um pouco por todo o lado] são positivas, se forem feitas com cuidado. A noção de época é difícil de ensinar às crianças. Ora, as moedas, a alimentação, as formas de tratamento, se estiverem bem adaptadas e formarem um todo coerente, sem anacronismos, permitem que as crianças interiorizem a época de forma correcta.

Papel de Deus

O papel de Deus na História, na Bíblia, é visto como de orientação e direcção. A relação Homem-Deus continua a ter o seu protótipo na Bíblia. Na Idade Média, entendeu-se que Jesus protegia a Igreja, os papas, os bispos. Hoje, continua a ser válida a afirmação de Ireneu de Lião: “A glória de Deus é a vida do homem sobre a terra”.

O problema do mal

Subsiste qualquer coisa de mais profundo: o problema do mal. O caso de Etty Hillesum (1914-1943, judia holandesa que morre em Auschwitz, nas câmaras de gás, com toda a sua família) é paradigma. A matança dos judeus não impede que Deus esteja presente. Deus não impede o mal, mas dá a Etty Hillesum o sentimento de estar acima de tudo isso. É um ponto de apoio na esperança da vida da humanidade. Aceitar o mal à sua volta sem perder o sentido de Deus é possível onde o mal marca presença, seja nos EUA ou no Iraque.