Precisamos de conversar

Católicos do Reino e católicos da Comunhão (2) As divisões dentro da própria Igreja católica, que segundo a designação de Timothy Radcliffe são entre os católicos do Reino e os da Comunhão (ver CV da semana passada), não fizeram parar de respirar o Corpo de Cristo, mas deram-lhe, pelo menos, alguns “ataques de asma”. Diz o frade dominicano que precisamos de aprender a respirar facilmente, que temos de curar as feridas do Corpo de Cristo. Tal tarefa, como explica no capítulo 10 do seu livro “Ser cristão para quê?” (ed. Paulinas), assemelha-se à criação de pandas, tarefa dificílima, morosa – por isso é que são raros.

Por que é que internamente os cristãos estão divididos? Entre outras razões, porque as tensões da sociedade, como é inevitável, fazem-se sentir nas comunidades cristãs. Por outro lado, há como que um vírus de intolerância que em vez de levar ambas as partes a dialogar, a tentar perceber, a querer esclarecer, leva à condenação, à exclusão, a fechar portas na cara. Nem sempre assim foi. Timothy Radcliffe diz que foi a partir da Guerra dos Trinta Anos, no séc. XVII, uma guerra entre católicos e protestantes, no centro da Europa, que o medo de falar entrou nas igrejas, quer católica, quer protestantes. A partir de então, “todo aquele que levantasse questões ou conservasse algumas dúvidas estava a subverter a causa comum”. Na Idade Média não era assim. Contra a ideia que predomina sobre esse tempos, qualquer tese, por muito disparatada que fosse, obtinha amplo espaço de discussão.

Hoje, as dificuldades do diálogo persistem. Há muitas mensagens, é certo. Mas pouca comunicação. Muitos falam, alguns ouvem, poucos respondem, ainda menos dialogam. “Por todos os lados, exercem-se pressões para a construção de comunidades dos que pensam da mesma maneira”. Um dos sintomas é a “subida do politicamente correto”. “Frequentemente a discussão é proibida, não por causa do que é dito, mas por causa do que se possa julgar que se quer dizer ou que possa ser utilizado para defender uma posição de facto inaceitável”. Ora, “a Igreja tem de tornar-se um espaço de uma liberdade provocadora, no qual ousamos lançar ideias, pôr à prova hipóteses, afirmar uma verdade incómoda e impopular, dizer ao rei que vai nu ou ouvir dizer que nós é que estamos nus. Nunca nos poderemos aproximar do mistério se não tivermos a lúdica liberdade dos filhos de Deus, se não fizermos experiências e errarmos e avançarmos às apalpadelas para a verdade. (…) Os cristãos deveriam ser aqueles que continuam a levantar questões, quando todos os outros pararam de o fazer”.

O antigo mestre geral dos frades dominicanos propõe alguns princípios para saber lidar com as tensões e polarizações:

– “Devo alegrar-me com a diferença, vê-la como um outro lugar para estar de pé e olhar para o alto”, até porque “a largueza de Deus é mais entusiasmante do que a mera indiferença”. A natureza ajuda a perceber isto. “Para um acasalamento ter sucesso, é preciso haver diferença, mas não uma incompatibilidade radical. Não se pode fazer procriar ovelhas e bodes uns com os outros. Se cavalos e burros acasalam, só conseguem produzir mulas infecundas”.

– Ultrapassar o medo. “O medo nunca é útil à prossecução da verdade. É da responsabilidade da ortodoxia não deixar que o pânico suprima a reflexão, ter a coragem de impedir condenações prematuras e assegurar que lhe damos o tempo necessário”.

– Encontrar lugares para falar. “Precisamos de lugares onde se possa falar sem medo e sem preconceitos. Podemos ter necessidade de nos zangarmos uns com os outros e ainda haver tempo para nos reconciliarmos”. “Precisamos também de muitas pequenas iniciativas a nível diocesano e paroquial. (…) Precisamos de muitas mais que abram espaços e lugares nos quais possamos falar livremente com os que são diferentes e sermos férteis. Precisamos de criatividade institucional”.

– Precisamos de líderes, mas atenção que “a liderança é a tarefa de todo o cristão batizado”. “A única compreensão da liderança cristã que acho estar de acordo com o Evangelho é a obrigação de cada um de nós dar o primeiro passo”. “A grande virtude de que necessitamos hoje, na Igreja, é a coragem de avançar, de tomar iniciativas, de pedir perdão, de procurar dar atenção mesmo àqueles que nos condenam. É mais fácil e mais seguro censurar os outros, em especial a hierarquia”. “Talvez gostemos de ter sempre alguma coisa de que nos possamos queixar. É mais seguro do que correr o risco de avançar e arriscarmo-nos a ser feridos”.

Se seguirmos estas linhas, porque “o Espírito Santo é derramado sobre nós para fazermos algo de novo”, “podemos até ser mais criativos do que os pandas”. E a Igreja “será um melhor sinal da unidade de todo o género humano em Cristo”.

J.P.F.