Presença e Comunhão

Nota Pastoral Somos diariamente tocados pelo sofrimento humano que, por variadas razões e em circunstâncias diversas, atinge pessoas, famílias e povos. Estes dias recentes e as últimas semanas foram disso expressão clara e experiência dolorosa.

Umas vezes é a doença que dói e faz sofrer, outras vezes são as provações que magoam a alma, tiram a paz e roubam a esperança.

Em alguns casos vemos vítimas inocentes ofendidas pelo ódio ou destruídas pela inveja e pela vingança, noutros casos são os acontecimentos inesperados, os acidentes surpreendentes ou os desastres naturais que arrastam vidas e destroem bens conseguidos com o suor sofrido de tantos anos e de muitas gerações.

Foi a nossa região de Aveiro, concretamente no espaço geográfico e social da nossa Diocese, atingida pelas recentes intempéries que desfizeram bens e empobreceram famílias e instituições, agora a braços com despesas inesperadas e acrescidas a juntar ao peso doloroso de situações já anteriormente difíceis.

Fazem-nos sofrer, também, os acidentes acontecidos ultimamente no mundo, no nosso país e na nossa terra que ceifaram a vida de crianças, de jovens e de adultos, que nos deixam dor e saudade e tanta falta fazem às suas famílias e a todos nós.

Na impossibilidade de levar uma palavra pessoal a todos e de manifestar em gestos de proximidade o meu afecto fraterno a cada pessoa e a cada família que está em sofrimento ou em luto, quero afirmar deste modo a minha presença e testemunhar a minha comunhão na dor e na oração ao Deus da vida, da fortaleza e da esperança.

É, também, nestas horas de maior dificuldade, contratempo ou dor que mais se agiganta o valor da amizade, o testemunho da fé e a grandeza do serviço generoso e gratuito, pronto e decidido a favor dos que mais sofrem.

Devo, por isso, prestar homenagem e gratidão a tantos Voluntários do bem e da boa vontade que, de forma solidária e cristã, se fazem próximos e irmãos dos que mais sofrem. Partilho estes mesmos sentimentos com as diferentes Associações e diversas Instituições que, de muitos modos e com inexcedível solicitude, acorrem em momentos de sofrimento e de dificuldades junto das pessoas que deles precisam.

A dor que os acontecimentos inesperados, os dramas humanos e sociais e as tragédias da natureza transformam tantas vezes em terror que nos amedronta não podem aprisionar o dom da vida humana nem ferir a plenitude da esperança cristã. A vida permanece para lá da morte e a esperança cristã abre-nos a porta da eternidade feliz junto de Deus.

O espírito da Missão Jubilar que nos anima e mobiliza uma Diocese por inteiro faz-nos mais sensíveis e presentes e torna-nos mais solidários e irmãos, sempre inspirados e fortalecidos pelas bem-aventuranças do evangelho, na certeza de que, com a ajuda de Deus e com a dedicação dos irmãos: «os que choram serão consolados» (Mt 5, 4).

Nestas ocasiões de experiência dolorosa da fragilidade da vida, frente a situações em que escasseiam todas as forças e faltam saberes humanos e respostas necessárias somos levados a perguntar: onde está Deus?

Encontro Deus nestas horas, ainda que muitas vezes de forma silenciosa e discreta, na presença reconfortante daqueles que se sentem enviados em Seu nome e se fazem testemunhas da Sua ternura.

Tantas vezes Deus se manifesta, nestes lugares de fronteira da existência humana e nestes momentos mais frágeis e incompreensíveis da vida, através do olhar atento de quem se aproxima de nós, do coração do irmão que afaga a nossa dor, da vontade determinada de quem tudo faz pelo nosso bem e da fé decidida de quem reza por nós e connosco.

Que assim saibamos todos ser presença de Deus e fazer em nome d’Ele com a nossa comunhão junto de quem sofre!

Aveiro, 28 de Janeiro de 2013

António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro