Presença pública contra a resignação

Vivemos num tempo de escombros, de perda de referências. Pela primeira vez, a geração mais nova tem um futuro frustrante pela frente. É possível mudar? É. E aos católicos cabe estar no palco social com a sua “diferença positiva”. Ecos da conversa com José Manuel Fernandes e D. Manuel Clemente.

Falou-se de crise económica e esperança, de perda de referências e mudança de mentalidades, de resignação e presença pública dos cristãos. Mas no princípio, foi a crise. “Até agora vivemos tempos difíceis, mas estamos a entrar numa fase mais difícil e complexa. Foi uma década perdida, mas olhamos para a frente e não vemos como podemos sair deste ramerrame”, afirmou José Manuel Fernandes, jornalista, a quem coube abrir a “conversa sobre a Igreja, Portugal e o mundo” com D. Manuel Clemente, Bispo do Porto.

O ex-director do “Público” apontou como hino da geração que tem agora menos de 30 anos a canção “Que parva sou”, do grupo Deolinda, que tem versos como estes: “Sou da geração sem remuneração / E não me incomoda esta condição / Que parva que eu sou / Porque isto está mal e vai continuar / Já é uma sorte eu poder estagiar (…) / E fico a pensar, / Que mundo tão parvo / Onde para ser escravo é preciso estudar”. E explicou: “A democracia contribuiu para o crescimento económico e redistribuição dos recursos, mas, pela primeira vez, há uma geração que está a viver pior do que a anterior. Em Portugal, o desemprego anda pelos 10 %. Entre os jovens, é 20 %. Entre os jovens licenciados é 25%. Trata-se de uma geração posta de lado porque os mais velhos taparam os empregos, os lugares nas chefias”.

O jornalista considera que “há muitas razões para estarmos preocupados e inquietos”, porque cada empréstimo [contraído por Portugal] é mais uma cavadela no buraco em que vamos cair”. Já no final da conversa, diria que Portugal foi um dos países que perdeu com a globalização, a par da Itália e da Grécia. “O que aconteceu com a globalização, ao contrário do que se dizia há 10 ou 15 anos, foi que muita gente saiu da pobreza na Índia, na China, na Indonésia. Nunca houve nada assim na história da humanidade. Mas nós estamos na parte do mundo que está a perder devido à nossa incapacidade de mudar”.

Tudo negativo? “Os escombros são também morais – continua José Manuel Fernandes – porque muitas das referências se perderam. (Mas) há sinais positivos, como as manifestações organizadas através das redes sociais. É necessário criar esse tipo de movimentos. Não fiquem a pensar nas reivindicações ou que alguém, o Estado, trate desse problema, mas perguntem o que podemos fazer para mudar”.

“É difícil conversar”

D. Manuel Clemente teve um discurso mais positivo, embora começasse por reforçar que “os escombros são económicos, culturais, restos de coisas, de referências”, e notasse o ocaso da conversação como sintoma do mal-estar actual. “É difícil conversar. Dizem-se umas coisas. Saltita-se de um lado para o outro sem um fio coerente. Alguém dizia: «Eu cá não sei, mas digo que…» Torna-se difícil o diálogo assim. Há confusão de pensamento, perde-se o fio à meada por causa de uma retórica vazia feita de mil estratagemas e frases repetidas”. Os sinais positivos vêm das próprias pessoas, como não poderia deixar de ser. “Há indícios de construção, gente que acorda, detecta, procura. Encontro muita gente disponível durante visitas pastorais nas escolas, associações, IPSS… Voluntariado para criar e inovar. Há uma disponibilidade-base que é garantia de que as coisas se podem resolver”, afirmou.

Das palavras do Bispo do Porto e Prémio Pessoa 2009 destaca-se a preocupação com a presença cristã no espaço público. D. Manuel Clemente nota que houve uma mudança na relação com a liberdade, que passou a ser entendida como possibilidade de escolha em meados da década de 1980, quando até então era essencialmente “liberdade política, institucional”. A liberdade passou a ser mais individualista e em “choque com o institucional”, o que dificulta a afirmação da diferença cristã. Este individualismo coexiste com os “preconceitos oitocentistas que reduziam a religião no espaço público”. “Somos temerosos em relação à presença da religião no espaço público. Por isso, um meu colega padre chamou à capela mortuária “centro interpretativo do divino”. E um dia perguntei a um cangalheiro porque é que tinha um barrete no seu carro fúnebre. Respondeu-me: «É para enfiar no crucifixo». Há gente que se incomoda”.

D. Manuel Clemente defende que “se há sensibilidades diferentes, em vez de tirar, é preciso pôr”, pois como estamos, a “pós-modernidade não é espaço de ninguém. Nenhum de nós lá se reencontra”. Na mesma linha, afirmou que “a tolerância não chega. Já não é mau. É melhor do que oprimir os outros. Mas é preciso respeito mútuo. Só com respeito se pode mobilizar”. Este respeito cria espaço para as diferentes propostas, incluindo a cristã. “Como cristãos católicos temos de estar no debate social porque temos propostas específicas para o futuro, numa diferença positiva, sempre com quatro referências/princípios: dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade, solidariedade”.

A “conversa” com o Bispo e o jornalista, que publicaram um livro conjunto à volta destes temas, foi promovida pela Comissão Diocesana da Cultura de Aveiro, com o apoio da Câmara Municipal. A iniciativa decorreu no Teatro Aveirense, na noite de 3 de Fevereiro, abrindo com uma peça de dança da Companhia de Dança Aveiro. A adesão dos que quiseram ouvir a conversa surpreendeu a organização, que, após a lotação da plateia, teve de abrir o balcão – o que não estava previsto.

J.P.F.