Preso na cadeira de rodas, livre para a vida

História verídica do Padre Luís de Moya em livro “Segundo as circunstâncias, dito ou escrevo eu mesmo, com um equipamento simples adaptado ao computador que me arranjou o Ignácio, um bom amigo perito em informática. Com ele posso mover o rato à distância com a cabeça e premi-lo com leves sopros”. Quem escreve estas palavras é Luís de Moya, padre da Opus Dei, em “Uma Vida sobre Rodas”, livro em que relata o acidente que o deixou tetraplégico, num domingo de Páscoa, e como conseguiu superar as limitações de não ter qualquer sensibilidade corporal do pescoço para baixo.

O livro surge agora pela editora Diel, precisamente quando nos cinemas ainda é exibido o filme “Mar adentro”, uma apologia da eutanásia a partir do caso do marinheiro galego Ramón Sampedro. Nesse filme (ver Correio do Vouga de 9 de Março de 2005), Luís de Moya (que aparece como padre jesuíta) é ridicularizado, por tentar convencer o protagonista de que vale a pena viver, apesar das dificuldades. Dificuldades que são, para o padre (Luís de Moya tem uma lesão mais grave e limitativa – C 4 – que a de Sampedro – C 7), por exemplo, dormir: “Quando naquelas noites compreendia que a espera pelo sono ia ser longa, começava às vezes a rezar o Terço, visto que era capaz de manter a concentração suficiente para pensar no que se contempla nas Ave-marias, Pai-nossos, e Glórias, e para os contar imaginando os dedos das minhas mãos”.

“Uma Vida sobre Rodas” é a dolorosa aprendizagem – mas cheia de sentido – do viver dependente e ao mesmo tempo autónomo para o essencial. Luis de Moya, confinado a uma cadeira de rodas, celebra a eucaristia, faz direcção espiritual, confessa, mesmo sem conseguir fazer qualquer dos gestos que essas funções habitualmente implicam. Como pode o padre abençoar, sem que as mãos lhe obedeçam? Pode, porque não se autocondena ao vitimismo. Não se resignar com as limitações que a vida impõe – mostra Luís de Moya – é a grande lição deste livro. É a grande liberdade do ser humano.

J.P.F.

Luís de Moya

Luis de Moya, o mais velho de oito irmãos, nasceu Ciudad Real, Espanha, em 1953. Em 1971 começa a estudar Medicina. No ano seguinte pede a admissão no Opus Dei, em Madrid. Depois de concluído o curso de Medicina, estuda Teologia em Roma. Em 1981 é ordenado padre. Em 1983 termina a licenciatura em Direito Canónico e no ano seguinte conclui o doutoramento nessa área. Nos asnos seguintes é secretário da Capelania da Universidade de Navarra e Capelão da Escola de Arquitectura. Em 1991 sofre o acidente que o deixa tetraplégico. Em 1996 publica o presente livro de experiências e reflexões a partir do acidente.