Os tempos estão mudados. E de tal maneira que já não conseguimos saber, com o mínimo de segurança, se a roupa que vestimos de manhã nos poupará, pela tarde, de uma constipação certa, estejamos nós na primavera, no outono ou no verão, uma vez que – quase certo – o inverno já nos não constipa. Mas a eficácia dos projectos de prevenção – alerta laranja, encarnado… – desencadeia programas preventivos de saúde, para obviar a eventuais surtos de gripe ou pneumonia!
Eu acho que o tempo se está a vingar não tanto das patifarias que as ganâncias fazem à natureza, dos descuidos com a poluição. Está, isso sim, desorientado com as mudanças de ideias de gestão pública – se é que as há!… -, de critérios valorativos da vida – se é que os há!… -, de flutuações dos próprios princípios de justiça… Nunca se sabe quando estará a passar o inverno da vida nacional; difícil se torna perceber o fluxo de vida primaveril, que abra as janelas do futuro; ninguém consegue descortinar quanto durará o inferno do verão, que nos vai queimando todas as esperanças; não sei se alguém saberá se não entrámos num outono eterno.
A minha Mãe, velhinha de noventa e cinco anos, trauteia ainda – já inocente perante todo este desatino, mais de “mentira lógica” do que metereológico – o resto da velha quadra: “A Primavera vai e volta sempre; a Mocidade vai e não volta mais”. É verdade que já não se percebe quando volta a Primavera. Agora que a Mocidade de um país tem sempre possibilidades de voltar não há dúvida alguma! Pode repor-se a natalidade. A inteligência e as outras faculdades humanas, as virtudes sociais, a educação social e moral, o acolhimento das inquietações espirituais têm condições de crescimento e reforço…
Quer dizer que, mesmo que seja no pólo norte, um país pode remoçar-se, superar todos os invernos – ainda que de neves eternas! -, programar toda a prevenção de verões de incêndios devastadores das consciências e das estruturas sociais, tornar multicolores os outonos das vidas debilitadas… e gerir o seu futuro em permanente Primavera! Só uma coisa é necessária: que as pessoas, a começar pelos “ministros” (= servidores) de todas as instituições – e, em primeiro lugar, do governo – tiverem coração de Primavera!
