Escrevo dois dias antes do referendo e faço-o de propósito, para que não seja o resultado dos votos contados a influenciar o meu pensamento. Poderei, assim, antecipar algumas reflexões oportunas, quaisquer que sejam os votantes a fazer a festa.
Quero deixar claro que o resultado final não me é indiferente. Tornei público o sentido do meu voto e as razões da minha opção. Não calei, nas últimas semanas, que estamos num momento muito importante e sério da vida nacional e que os êxitos e preocupações económicas dos governantes não podem deitar para debaixo do tapete o mundo de problemas sociais e humanos graves que temos diante dos olhos e não podemos ignorar. Há situações que põem a claro o respeito ou o desprezo por valores morais e éticos essenciais, que não só dignificam a pessoa, como dão consistência à comunidade que somos e esperança ao futuro que desejamos e necessitamos.
Porque as situações e os problemas são conhecidos, temos possibilidade de tirar, desde já, algumas conclusões que podem e devem perdurar para além das eleições.
Estes meses puseram ainda mais a claro que há, na sociedade portuguesa, fracturas e divisões muito grandes e projectos muito divergentes. Desde há muito, o pluralismo nas opiniões, atitudes e opções dos portugueses se foi constituindo um desafio à convivência pacífica e ao respeito pela diferença. Uma realidade que não dispensa a mútua aceitação, o diálogo aberto, a tolerância activa, a liberdade ao alcance de todos, para que cada um se possa afirmar e exprimir, sem que seja por isso minimizado nos seus direitos de legítima cidadania, ou considerado a mais nesta terra que é também sua.
Ficou claro, para quem o quis ver sem preconceitos, que os cristãos de norte a sul e de todos os quadrantes sociais, não são nem ignorantes, nem retrógrados. Têm cabeça para pensar e razões para se organizarem pelas causas em que acreditam. Estão presentes, conscientes e activos na nossa sociedade, como voluntários empenhados em coisas fundamentais. Não cruzam os braços com as derrotas, nem entram em histeria com as vitórias e os êxitos. Na fidelidade ao que, no passado, foi e continua a ser essencial, estruturante e gerador de segurança, lutam com denodo no presente, com olhos num amanhã e projectando o futuro que não se dispensam de querer construir com os outros.
Também não se pode esquecer que muitos dos que se dizem laicos e se contrapõem em muitos casos à tradição cultural inspirada no cristianismo, relativizando ou negando os seus valores, têm hoje projectos próprios de sociedade e por eles lutam, segundo o seu mundo e concepções. Também estes, como todos, merecem o respeito que as diferenças legítimas de uma sociedade plural nunca dispensam.
Serão as opções seguintes às eleições, a sua verdade, qualidade e validade, bem como o empenho em as levar por diante, como resposta aos problemas em campo, que dirão da validade dos projectos sociais de cada parte que nelas se empenhou e por elas lutou.
O problema do aborto, a dor de quem o pratica ou a imposição dos que para ele empurram a mulher, a responsabilidade pelo dom indiscutível da vida, o respeito e os compromissos sociais, que o mesmo dom comporta, não ficaram resolvidos nem terminam, para o governo e para a comunidade solidária, com o resultado eleitoral. A simples mudança de uma lei, em breve a clamar por novas mudanças, é muito pouco.
Do anterior referendo, e já antes dele, as iniciativas de apoio às mulheres em dificuldade, grávidas ou não, de protecção à vida do nascituro, de acolhimento respeitoso e confidencial de quem havia abortado e precisava de ajuda, foram da Igreja ou de cristãos organizados. Não vi nenhum grupo pró-aborto a agir, em campo e de modo consequente, ante os problemas conhecidos e sobejamente denunciados.
Os serviços públicos, entretanto quedaram-se em aspectos pouco mais que informativos, por vezes discutíveis, ou apoiaram, como é seu dever, acções em curso das instituições privadas. Como vai ser agora? Parte já sabemos, a outra estamos atentos para ver.
