Notas Litúrgicas Começámos as Notas litúrgicas deste ano pastoral, abordando o tema da “festa”, porque ele é fundamental para celebrarmos os valores do domingo, o dia do Senhor, o dia da Igreja, o dia dos cristãos, o dia vertebrador da nossa fé.
No centro do domingo e da nossa fé, está a Eucaristia, de modo que o tema seguinte reflectiu sobre “Palavra e sinais na Constituição da Liturgia”, para nos apercebermos como a Igreja, no seu documento conciliar sobre a liturgia, estabelece o nexo entre a Palavra de Deus e os diferentes sinais litúrgicos, uns e outros, portadores da graça divina.
Iremos, nesta série de reflexões, abordar a questão da proclamação da Palavra na celebração dos sacramentos, pois ela guarda uma importância vital para a adequada celebração dos mistérios da fé.
Desde há vários anos que a teologia se tem debruçado sobre a relação fé-sacramento. Procura-se ultrapassar, nesta reflexão teológica, uma certa dicotomia entre Palavra e Sacramento. Esta reflexão, apesar dos seus avanços ainda não está terminada. Vários pontos continuam imprecisos e entre eles a relação exacta existente entre o que se convencionou chamar “Liturgia da Palavra” e “Liturgia eucarística”. Certamente a Constituição sobre a Sagrada Liturgia afirma que “as duas partes de que consta a missa (…) estão tão intimamente unidas que constituem um só acto de culto” (n. 56). Apoiando-se igualmente noutros textos conciliares, a instrução Eucharisticum mysterium explica isto nos termos seguintes: “pois «requere-se a pregação da Palavra para o ministério dos sacramentos, visto que são sacramentos da fé, que procede da Palavra e dela se nutre». Isto há-de se dizer sobretudo da celebração da missa, na qual a liturgia da Palavra tem a intenção de fomentar de maneira peculiar a união estreita entre o anúncio e a escuta da Palavra de Deus e o mistério eucarístico.
“Portanto, os fiéis, ao escutar a Palavra de Deus, compreendam que as maravilhas que lhes são anunciadas têm o seu ponto culminante no mistério pascal, cujo Memorial é celebrado sacramentalmente na missa. Deste modo, escutando a Palavra de Deus e alimentados por ela, os fiéis são introduzidos em acção de graças a uma participação frutuosa dos mistérios da salvação. Assim a Igreja nutre-se do pão da vida tanto na mesa da palavra de Deus como na do Corpo de Cristo” (n. 10).
Mas, qual é a natureza precisa desta relação que se afirma tão estreita? Será, simplesmente que, ao detalhar as numerosas “maravilhas” realizadas por Deus na história da salvação, a proclamação da Palavra oferecerá alguns elementos necessários para uma acção de graças plenamente consciente do seu objecto? Ou tratar-se-á de que, ao alimentar a fé pela recordação dos factos marcantes da economia da graça, se permitirá uma participação mais fervorosa no sacramento? Ou, provavelmente, ao apresentar progressivamente ao longo do ano litúrgico os diversos “mistérios” da vida de Cristo, na sua relação com as grandes etapas da Antiga Aliança, se assegurará a catequese fundamental necessária a uma existência cristã adulta?
A teologia apoia-se nestes tipos de explicação. É necessário reconhecer que são válidos e cheios de implicações. Apesar de tudo, devemos interrogar-nos se estes motivos chegam até ao fundo do problema. Alguns deles podem levar a conceber a proclamação da Palavra como um preliminar, como uma simples preparação para a recepção frutuosa do sacramento. E isto reduziria o papel da Palavra de Deus na salvação, limitando-o a não ser mais que uma via de acesso ao rito, dotada de uma eficácia puramente auxiliar. Ora bem, não descobrimos o valor próprio da Palavra? Compreende-se, então, a reação daqueles que, apoiando-se na origem diferente das duas partes da liturgia actual da mesma, preferem afirmar que são independentes também na sua finalidade. Mas aqui não se trata de introduzir um paralelismo, uma dicotomia, perante a qual não se pode deixar de sentir um mal-estar profundo, sobretudo depois das investigações dos últimos anos sobre as relações do sacramento e da fé.
Apoiando-nos sobre o positivo destas tentativas de solução, vamos procurar descobrir o ponto de união fundamental entre a Palavra proclamada e o sacramento. Estas reflexões irão centrar-se, sobretudo, na Eucaristia porque ela é a celebração na qual a união destes dois elementos se converteu em lei normal.
SDPL
