Notas Litúrgicas A. A osmose do Sacramento e da Palavra
A nosso reflexão incidirá particularmente, como já se afirmou, sobre a Eucaristia, acto sacramental do Memorial da Páscoa. Iremos partir de uma reflexão sobre a natureza desta última, evitando entrar na questão, difícil também, das origens das duas partes da missa, questão que não podemos abordar nestas reflexões. Porque se é verdade que a Palavra de Deus se realiza no sacramento, também é verdade que o sacramento adquire o seu pleno sentido na Palavra.
1. O acontecimento eucarístico
Que é, na realidade, o sacramento na sua última profundidade? Para o descobrir com clareza é necessário, de acordo com a teologia mais clássica, distinguir bem os dois níveis essenciais do que se designa globalmente com o termo “sacramento”. O primeiro destes niveis é o dos sinais e o dos ritos, a realidade exterior sobre a qual a Igreja tem um domínio completo e que ela deve tornar acessível aos homens, em nome de Jesus Cristo. Na linha de S.to Agostinho, a tradição medieval fala assim de sacramentum tantum, entendendo com isso não somente o rito na sua execução e na sua apresentação material, mas também um vasto conjunto de símbolos nos quais cristaliza. O outro nível é a res, o dos valores interiores gravados pelo Espírito no coração e na vida dos crentes. Ora bem, o sacramentum tantum, ou seja, o rito eclesial, não é mais que um meio de relação com a res. Esta depende essencialmente de Deus, mais precisamente do poder do Espírito do Senhor Jesus. É isto que quer afirmar a tradição tomista quando atribui ao sacramento uma causalidade de tipo instrumental. Porque quem diz instrumento estabelece necessariamente relação à causalidade superior que, em definitivo, é a responsável principal do efeito. Embora o sacramentum exerça uma actividade própria, imprimindo a sua marca sobre a obra comum – visto que “realiza o mesmo que significa”–, situa-se, integralmente, na dependência do Espírito que o utiliza para que se realize nos homens um acontecimento de salvação.
Ora bem, em clima cristão não existe acontecimento de Salvação sem referência objectiva ao Acontecimento da Páscoa de Jesus Cristo. No acontecimento eucarístico o Senhor Jesus, pelo poder do Espírito, torna, pois, presente para os seus o Acto transcendental do seu ministério pascal, a fim de que aqui e agora a assembleia dos irmãos, e nela cada um dos crentes, comungue na sua realidade de Homem novo. Assim se realiza o Mistério, a comunhão dos homens com o Pai e, entre eles, em Jesus Cristo (cf. Ef 1, 3-23). A Eucaristia é o centro do organismo sacramental precisamente porque nela, sob um regime de sinais, o Senhor oferece aos seus, de uma maneira eminente, uma participação no seu Espírito e na sua Carne, da sua passagem à Vida nova.
Mas, já que o Mistério liga em unidade os valores da Criação e os da Salvação, e já que esta unidade tenta realizar a verdade do homem, o Mistério exige também que nesta comunhão no destino do Senhor intervenha a liberdade humana. A verdade do homem não existe, de facto, senão na liberdade. Assim, também o sujeito da Eucaristia é o homem interpelado por Deus, aqui e agora, e respondendo a este convite com lucidez, na fé, na acção de graças e na consciência de que esta resposta implica também exigências. Estas não se referem simplesmente ao instante imediato da participação nos ritos. Referem-se sempre, e principalmente, ao mais além do sacramento, ao mais além que não se confunde com o da vida terrestre, que vela na expectação, mas que concerne já e sempre ao simples amanhã, ao simples instante próximo. O acontecimento da graça, vivido no sacramento, compromete a liberdade do homem para o pós-celebração na vida-na-graça. Isto pertence à sua qualidade de acontecimento de Salvação. Porque Deus recria, desta forma, o homem levando-o a sair da sua condição de indecisão e de apatia, que é a sua morte, para entrar livremente e com coragem na novidade da vida que Ele lhe propõe e que exigirá o pôr em acção de todo o ser do homem.
O acontecimento eucarístico pode, pois, descrever-se como uma comunhão do crente na densidade do Acontecimento pascal, sendo este compreendido nas suas duas dimensões inseparáveis, das quais sempre se deve salvar a hierarquia. Fundamentalmente, trata-se da entrada na obra gratuita e transcendental que o poder do amor do Pai realiza na humanidade de Jesus pela ressurreição. Mas é também a entrada na passagem do Servidor dizendo ao Pai um “sim” que compromete com intensidade todas as possibilidades do seu ser de homem. Sem este segundo registo, que a teologia católica deixou muito na sombra, não há, portanto, pelo menos nos casos normais, autêntico acontecimento de graça, nem que se trate de sacramento.
SDPL
