Profundidade educativa

Aquilo que me move não é o desgosto confessional, mas sim a profunda convicção da esterilidade de tantos esforços “educativos”, a sensação de aridez da gigantesca “máquina educativa”, que todos pagamos. As ilhas de boas práticas pedagógicas, de educadores que desenham e assumem projectos educativos com um bem definido menu de valores, de verdadeiras comunidades educativas, desenvolvendo sinergias com os diversos parceiros, flutuam sobre um revolto oceano de desinteresse, de jogos de interesses, mas, sobretudo, de neutralidade poluidora, que impede de ver a profundidade de sentido e cerceia os horizontes de futuro.

É claro que as leis físicas que geram a harmonia da natureza requerem um “dever ser”, um ethos: ecológico, biológico, mesmo psicológico e sociológico. A ética organiza estes “dever ser”, num sistema que permita uma utilização correcta da natureza, um respeito por toda a forma de vida, com relevância para a vida humana, um clima social sadio a favorecer o equilíbrio psíquico das pessoas, um tecido de relações salutares.

Acontece que nem sequer este quadro de valores éticos naturais informa a maioria das preocupações “educativas”. Não há projecto educativo; mas tão-somente sistema de instrução, em desesperada busca de sucesso, igual a competências “técnicas” para enfrentar o mercado de trabalho e servir uma ciência e tecnologia desumanizadas.

A visão profunda do Mundo, da Pessoa humana, da relação social, ultrapassam as análises laboratoriais, as observações empíricas e mesmo os dados estatísticos. A parábola do religioso, a linguagem metafórica é que permitem penetrar o sentido profundo das realidades. Essa visão torna-se indispensável para se compreender o sentido dos seres e dos fenómenos – o ser – e o consequente “dever ser”, que os respeite, enquadre e desenvolva.

Essa é a razão essencial pela qual consideramos frustrados todos os esforços de sucesso educativo, já que, à partida, recusam, na sua maioria, esta compreensão prévia, do mundo, do indivíduo, da sociedade, sujeitando-se, desse modo, a construir sobre a fluida teia do relativismo.

Educar todos sabemos que é diferente de instruir. Educar é formar. Formar homens e mulheres com ciência e com sabedoria, com competência e com humanidade, com inteligência e com sensibilidade. A ética natural é um primeiro nível, possível de se enriquecer com a visão moral resultante de uma leitura religiosa. Com a riqueza de tal visão poder ser plural e inclusiva. Afinal, de que têm medo os promotores das reformas educativas?…