Proximidades…

A história não é uma teia de datas e nomes de pessoas. Mas são as pessoas que fazem a história, na sucessão dos dias, dos meses e dos anos. O âmago da história vivida situa-se na profundidade das inten-ções que motivam os factos, que tecem os encadeamentos de causas e projectam torrentes de consequências.

Por estes dias, o Papa Bento XVI celebra os seus oitenta e um anos de vida e três de pontificado, enquanto o bispo emérito de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade, celebra noventa anos do seu nascimento. Datas diferentes, figuras diferentes. Mas, indubitavelmente, ambos construtores significativos da história da Igreja que nós também integramos.

Cada um no seu múnus, mesmo assim com alguma diferença de idades, descobrimos-lhes facetas aproximadas. A começar por um chamamento bastante precoce a responsabilidades de monta, com uma resposta de notável desempenho, quer de um quer de outro.

Sobressai a sua envergadura intelectual. E em ambos num constante esforço de diálogo da fé com a ciência, do evangelho com a cultura. Em níveis distintos, sem dúvida, mas com o mesmo zelo incansável de testemunhar Jesus Cristo como o Absoluto que sacia todas as ânsias do Homem.

Portes hieráticos, aparentemente distantes, manifestam-se, na relação pessoal, íntimos quanto exige uma verdadeira comunhão fraterna. Do Bispo Manuel sobra-me a memória de uma delicadeza, amizade sem condições, mesmo diante das irreverências de um recém-ordenado. Um verdadeiro Pai! E do Papa, então Cardeal Ratzinger, perduram as lembranças das visitas aos “seus” seminaristas, hóspedes do Pontifício Colégio Português de Roma, num clima de interesse cordial e de apoio amigo.

Magistério sem moralismos, centrado no que o acontecimento Jesus Cristo é e significa para a Pessoa humana, é timbre dos seus ensinamentos, ricos mas sóbrios, que não se lêem sem atenção, mas que entusiasmam e cativam. O Bispo em tom mais pastoral, o Papa em tom mais teológico. Um dom às Igrejas, nestas últimas décadas, que nunca agradeceremos em demasia.

E importante é também notar que se situaram com argúcia nos tempos e desafios que os acolheram. Palavra oportuna, presença firme, no cerne das situações e problemas que enfrentaram. Ousadia e prudência, a um tempo, para testemunhar a originalidade da sua missão!

Será precisa maior distância, para temperar esta proximidade, em ordem a uma apreciação mais profunda e isenta. Todavia, reconhecer as pegadas claras e vigorosas que deixam no rasto do seu ministério é uma constatação indesmentível. Verdadeiros Pastores, que abrem caminho ao Rebanho, mostrando os Céus, apontando o Rumo!