Psiquiatra critica a frivolidade dos divórcios

“Há 20 anos, dizia-se: ‘Se a coisa corre mal, é melhor que se separem’. Hoje já não é assim”. As palavras são do psiquiatra infantil (ou pedopsiquiatra) Paulino Castells, que acaba de publicar o livro “Separarse bien. Pensando en los demás e en uno mismo” (Separar-se bem. Pensando nos outros e em si mesmo). Para este médico e professor da Universidade Internacional de Barcelona, entrevistado pelo diário espanhol ABC (16 de Fevereiro de 2006), não existem divórcios bons quando se tem filhos, e a consequência de tantos divórcios, cada vez mais precoces, é o aparecimento de uma sociedade até agora desconhecida. Interrogado sobre o perfil desta nova sociedade, o psiquiatra responde: “Com indivíduos de uma grande fragilidade, porque a sua segurança no contexto familiar rompeu-se, quando ainda eram muitos novos. A confiança nos adultos, que impõem as normas, e que se supõe que sejam modelos, está quebrada. Teorizando, podem vir a ser adultos desconfiados, adultos com medo dos seus próprios sentimentos, que encaram a vida de forma precária, que não querem ter filhos, para que estes não sofram… (…) Sinceramente, vejo muitos mais aspectos negativos do que positivos [na facilidade do divórcio]. O que não invalida que haja casos, muito raros, em que se agradeça que um casamento que estava a ser um inferno para a família seja quebrado. Infelizmente, o que vejo com frequência é que os matrimónios chegam ao fim por uma tremenda frivolidade”.

Paulino Castells não é adepto da ideia de que por vezes “a separação é melhor para os filhos” e acrescenta: “A apreciação dos motivos de ruptura que temos como adultos não costuma coincidir com a apreciação que têm os filhos. Os filhos não entendem por que se separam os pais. ‘É porque discutimos muito’. ‘Tá bem – pensam os filhos –, mas eu também discuto com os meus colegas da escola’. Há uma total disparidade. E os pais ficam desorientados: ‘Não entendem porque me separo, não percebem que encontrei um novo amor na minha vida.’ Pois claro que não percebem”.

O psiquiatra espanhol afirma que recebeu várias cartas de pais que leram o seu livro e que decidiram esperar mais algum tempo, depois de perceberem as consequências do divórcio. “É uma atitude autenticamente responsável perante a vida”, diz Castells. “Hoje queremos evitar a ruptura por causa das consequências que tem”.