Pujante Primavera

Abre-se o azul do céu em abóbada fascinante. O sol da vida esconjura o frio do Inverno. A terra mãe oferta, amorosamente, o suco que guarda no seu seio às raízes sedentas de humidade. E a paisagem começa a revestir-se de cores, na policromia das folhas, na variedade das flores. Anuncia-se um tempo novo, está aí a Primavera da Natureza.

Há outros céus que pretendem abrir-se, outros sóis que teimam em romper frios e neves, outros surtos de vida a pretender desabrochar em flores e frutos, outras primaveras a procurar suplantar os invernos do quotidiano: as esperanças de formação e trabalho da juventude, o culto da vida, a estabilidade da família, a solidariedade social, as atitudes de verdade e transparência, os movimentos pela paz, o zelo pelo ambiente, os grupos de participação e corresponsabilidade… Pujante primavera, se lhe não cercearem os impulsos!

Apetece recordar a expressão do poeta Aleixo: “Quem trava a água que corre é por si próprio enganado; o ribeirinho não morre; vai correr por outro lado”! Essa é a esperança de todos os que lutam para que desabroche a vida latente em tantas situações da nossa sociedade, dos nossos tempos, da nossa própria Igreja.

A letra mata, o espírito vivifica! As estruturas servem a vida. Tornam-se caducas quando a cerceiam, pior do que isso, quando planeiam a sua destruição. E, como as estruturas resultam das pessoas que as pensam e as dirigem, deixar cair estruturas só acontece com a mudança ou a conversão das pessoas.

Será, porventura, ocasião de começarmos a aferir se as pessoas se convertem, ou se se dispõem a deixar que outros se cheguem à frente, para que, na realidade, as estruturas mudem e possa ganhar corpo o surto de vida que desenhe um futuro de optimismo. Pelos vistos – e dizia-o, por estes dias, alguém responsável – o que entrava as reformas é uma cultura entranhada de métodos, meios, processos arcaicos… Então, vamos a conduzir aos arquivos da memória o que já foi, para darmos lugar ao que é e ao que poderá ser, em busca, de uma vez por todas, de radiosas manhãs!

A Páscoa, que se aproxima, é força incontível de vida nova: “As coisas antigas passaram”. No mistério da união pessoal com a nossa humanidade, a divindade de Jesus Cristo tornou imparável o fluxo de renovação permanente. A aliciante do discipulado é, precisamente, a tensão constante para a novidade, até à sua consumação nos “novos céus e nova terra”. Conscientes, todavia, de que essa novidade passa pela constante descida do grão de trigo à terra, para morrer, como condição de fruto novo! Ai, se nós o aprendêssemos a sério, a sementeira de esperança tornar-se-ia colheita permanente de alegria e optimismo.