Punções perigosas

Seria divertido, se não fosse demasiado sério o que tudo isto envolve. Refiro-me às perspectivas de sucessivas e misturadas consultas à consciência dos portugueses, nos próximos tempos, sobre pessoas para gerirem mais de perto os interesses do bem comum, pessoa para ser garante da identidade nacional e do normal funcionamento das instituições do Estado, com a eventualidade de, pelo meio, aparecer uma desnecessária e paradoxal consulta sobre o direito à vida.

1 – Punção perigosa, antes de mais, esta mistura de eleições autárquicas com antecipação de candidaturas às eleições presidenciais. Por mais que se façam gongóricas afirmações de candidaturas supra-partidárias, solenes declarações de que elas são resposta a pressões da sociedade civil (onde estão tais pressões?), é claro como água que os partidos se envolvem. E fazem-no, nitidamente, com o intuito de aproveitar rostos e memórias para influenciar o voto nas autárquicas.

2 – Punção perigosa, porque se pretende justificar candidaturas com a urgência de levantar o ânimo dos portugueses, atormentados com um atrofiamento da economia, que lhes entra nos bolsos, abandonados pela classe dirigente insensível às terríveis consequências da seca e dos incêndios, perplexos perante as benesses anunciadas que viram disfarçado agravamento de encargos, espantados com a escalada de “favores para os amigos”, … como se um sebastião anunciado possa fazer uma hipnose colectiva, para levantar os ânimos.

3 – Punção perigosa, porque se aproximam realidades que estão anos de luz à distância umas das outras. Nobre a responsabilidade de escolher autarcas, sem dúvida. Nobre também a chamada a escolher o supremo representante da nação, que, por isso, inequivocamente, deveria estar liberto das teias partidárias e dos aparelhos do poder, para ser efectivamente o presidente de todos os portugueses, apenas com a “camisola nacional”. Mas que se não misture isto com o que é o único direito fundamental da pessoa sem limitações de qualquer espécie – o direito à vida! Essa decisão está a anos de luz de qualquer outra, porque nem sequer cabe ao Estado questionar sobre esse assunto.

4 – Muitos podemos distrair-nos, misturando todas estas coisas, como se fossem iguais, ou decorrentes umas das outras. E, pior que isso, aliá-las umas às outras, sob a emoção de uma cor partidária, como se a nossa consciência deva obrigações a um rosto ou a um programa. A verdadeira liberdade é poder decidir – ou contribuir para decidir – o que dignifica e respeita a dignidade, inalienável, indisponível, irrenunciável, da pessoa humana e o que, nessa perspectiva, resulte no bem comum.

Muita serenidade, portanto, para cada um distinguir, escalonar, manifestar seriamente a sua convicção, seguro de que o “elixir mágico” não existe. A felicidade pessoal edifica-se a par com a harmonia social, com uma profunda exigência de honestidade!