O Papa Bento XVI, na sua primeira encíclica “Deus é caridade”, insiste na necessidade de purificar a razão e de promover a formação ética, como tarefas humanas primárias que a Igreja tem o dever de realizar, dando uma “contribuição específica para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis” (nº 28).
Noutras passagens, salienta a urgência de educar e formar o coração, para cada pessoa cultivar para com o seu próximo uma relação de proximidade serviçal, de misericórdia compassiva, de acompanhamento amigo e libertador.
Estas dimensões da acção educativa da Igreja fazem parte integrante do processo de evangelização e constituem uma mais valia para o envolvimento generoso e esclarecido dos cristãos como cidadãos de pleno direito. Daí a urgência da sua implementação. De contrário, vai-se reduzindo o alcance transformante da fé e desvirtuando o dinamismo operativo da caridade. Simultaneamente, a esperança perde energia e degenera em atitudes de desinteresse progressivo e de contagiante abatimento depressivo.
Das três insistências papais, quero destacar a da purificação da razão pela riqueza humanizante e oportunidade pastoral, factores estimulantes para a nossa caminhada quaresmal, rumo a uma Páscoa em que a vida nova, acolhida por um coração disponível, se revela em plenitude.
Purificar a razão é, antes de mais, remover tudo o que obscurece o seu normal dinamismo em busca da verdade, a sua capacidade de rasgar horizontes perante a dúvida e a incerteza, a sua persistência esforçada face às interrogações fundamentais da vida. São factores de obscurecimento o não conhecimento de si mesma e das suas potencialidades, a falta de treino para a reflexão, a preguiça nos esforços exigidos para a prossecução, o preconceito redutor, seja ele moralizante ou ideológico, o medo face à novidade descoberta e à surpresa exigente, o relativismo das certezas objectivas, a recusa paralisante de horizontes transcendentes, a obstinação fundamentalista, quer religiosa, quer científica, jurídica ou legal. E a lista podia continuar, fazendo uma leitura mais pormenorizada dos “maus-tratos” impostos à razão por muitos dos que pretendem prestar-lhe culto e defendê-la.
Purificar a razão é, acima de tudo, agilizá-la em todas as suas capacidades a fim de não se deixar instalar na verdade e no bem alcançados, mas que prossiga e avance no cultivo do espírito de busca, de expectativa, de abertura e curiosidade, de indagação do que possa ser valioso e funcional para a humanização das relações sociais e das estruturas organizativas. Quanta irracionalidade lógica e emocional nos comportamentos pessoais e colectivos, na escala predominante de valores, nas pautas sociais que comandam a vida política e económica!
Purificar a razão é proporcionar-lhe um espaço de verdade, em que possa desenvolver as suas energias vitais, acolher os contributos culturais e religiosos e enraizar as convicções alcançadas; é provocar condições que facilitem a peregrinação interior em total liberdade, de modo que cada pessoa seja honesta e honrada consigo mesma, objectiva para com a realidade dos factos; lúcida e transparente na transmissão do que apreende como verdadeiro e valioso, capaz de formular um juízo ético alicerçado na consciência autónoma. Assim, a razão confia nas “razões fundamentadas” que dão consistência às suas conclusões. Doutro modo, fica sempre insegura, dependente de apreciações alheias, fragilizada, pálida “imagem” da sua autêntica grandeza.
Purificar a razão é abrir caminho a toda a pessoa e à pessoa toda, para que cresça na compreensão de si mesma, como ser humano, livre e inteligente, sujeito de decisões responsáveis, membro solidário da família universal, habitante interdependente no vasto conjunto da biodiversidade que existe no nosso planeta, filho do Deus da história da salvação pela fé em Jesus Cristo, Senhor do universo.
Purificar a razão exige seriedade e confiança, acerto pedagógico, amplitude de horizontes. Quem aspira ao Infinito pode encontrá-Lo em todos os passos que vai dando e que alimentam o desejo de Deus. Quem se revê à luz de Jesus Cristo conhece-se com mais verdade e sabe afirmar-se com maior autenticidade. Quem se deixa guiar pelo Espírito aprende a valorar tudo o que é humano e as suas ricas potencialidades abertas a uma plenitude maior.
