Quando a Igreja fala da família do que é que se está a falar?

Matrimónio, um caminho a dois A Igreja fala daquele momento original que o primeiro livro da Bíblia descreve como “o princípio…”. Foi nesse princípio que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança. E continua o livro: “Ele os criou, homem e mulher…” (Gn 1,27). A partir daqui poderemos dizer que a família humana (formada por um homem e uma mulher) é uma unidade harmoniosa onde se conjuga a individualidade de cada um com a sociabilidade de todos. É, pois, neste âmbito primário e natural, inscrito pelo Criador no mais profundo do coração de cada homem/mulher, que os valores da conjugalidade, do amor filial, da solidariedade e da doação amorosa e responsável encontram um clima favorável onde se desenvolvem e dão frutos.

Tudo isso é a família no seu sentido mais natural: comunidade de amor e de vida que tem em Deus a sua matriz original, o seu autor, quando semeou no coração do homem e da mulher esta centelha de amor que os fez entenderem-se como o um do outro: a mulher deste homem e o homem desta mulher… sentiram-se felizes um ao lado do outro “porque… osso dos meus ossos e carne da minha carne” e, por isso, “…o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne” (Gn 2,23-24). É este o momento primeiro da família a que se seguirão muitos outros onde a cumplicidade marcará o ritmo ao som de canções ou de lágrimas, encontros e desencontros até que o amor os selará em pacto para toda a vida e para além dela.

Quando a Igreja fala de família fala deste momento primeiro, base da “civilização do amor”, para recordar o papa Paulo VI, a que se contrapõe uma outra conceção a que o beato João Paulo II, numa carta dirigida às Famílias a quando do ano Internacional da família (1994), chama de “anticivilização destruidora…” e que concebe a família como um projeto feito pela mão dos homens e, portanto, modificável como se se tratasse do fruto de um consenso social ou do jogo democrático das maiorias parlamentares.

A família, tal como a Igreja a concebe e célula base da sociedade, é a primeira e nunca a segunda.

Na próxima semana: Por que é que a Igreja se mete sempre ‘nestas coisas’ da família?

Manuel Joaquim Rocha