O leitor pergunta – Gostava que me explicassem a ajuda dada a Israel, por parte de Deus, nas batalhas que venciam. Qual era o seu objectivo? Quem percorre as páginas do Antigo Testamento, sobretudo nos livros de Josué e Juízes, frequentemente é confrontado com o facto de Deus ser apresentado a ajudar Israel nas batalhas e até, algumas vezes, ser Ele a estabelecer os planos de ataque.
Todos os povos, e em todos os tempos até hoje, sempre invocaram a protecção do seu deus ou deuses para superar as suas dificuldades, de modo particular em caso de guerra. As duas partes em conflito assim faziam. Em caso de êxito, naturalmente o sucesso era atribuído à ajuda sobrenatural. O povo hebreu não escapava a esta mentalidade. Mas existe um outro motivo mais profundo para a forma como as coisas nos são apresentadas.
O povo hebreu, libertado do Egipto, encaminha-se para a Terra prometida por Deus aos patriarcas. Após 40 anos no deserto do Sinai foi tomando posse progressivamente da terra que era habitada por outros povos que, a pouco e pouco, ou foram sendo expulsos ou integrados no seio do novo povo aí chegado.
Os livros bíblicos de Josué e Juízes foram escritos centenas de anos depois destes acontecimentos. Embora baseados em histórias, sempre um pouco aumentadas, que foram passando oralmente de geração em geração, pretendem dar uma lição, não histórica mas moral, aos israelitas da época em que foram escritos: a Terra que habitam foi dada aos antepassados por Deus, que é fiel às suas promessas, desde que o povo lhe seja também fiel, observe os seus mandamentos e não adore outros deuses. Por isso, os livros, apresentam a facilidade com que venciam as batalhas quando eram fiéis a Deus e também como as perdiam quando se esqueciam dele e praticavam o mal. Assim, não se trata essencialmente de narração histórica, fiel aos acontecimentos tal qual se deram, mas duma reflexão à luz da fé sobre o passado como lição para o presente. Por isso, naturalmente, num caso ou noutro pode haver uma certa distância entre o que de facto aconteceu e o modo como está a ser narrado.
Para melhor compreensão deste processo, basta lembrar o modo como ainda há poucos anos alguns livros de história portuguesa contavam a batalha de Aljubarrota.
Júlio Franclim Pacheco
