Quando os cegos nos ensinam a ver

À Luz da Palavra – XXX Domingo do Tempo Comum – Ano B A Palavra deste domingo centra-se na preocupação de Deus para com o homem e a mulher, no sentido de alcançarem a vida autêntica, traçando também o caminho que devem seguir para a alcançar. O caminho primordial é o próprio Jesus. É na medida em que aderimos a Ele e acolhemos a sua proposta de salvação que chegamos à vida verdadeira.

A primeira leitura faz-nos um convite à alegria, porque “O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel”, dos conturbados momentos do exílio babilónico. E, entre o povo que regressa desse exílio e se salva, vêm o coxo, o cego e a mulher que vai ser mãe ou que acabou de dar à luz, isto é, vêm as pessoas frágeis, que são o alvo da especial atenção de Deus. Este texto manifesta-nos o jeito materno com que Deus cuida do seu povo e lhe restitui uma vida de qualidade.

No evangelho, Marcos narra o belo episódio da cura do cego Bartimeu. Enrolado na sua cegueira, jazia às portas da cidade, ouvindo a algazarra de quem passava e pedindo esmola. Não podemos dizer que vivia uma vida verdadeira, pois que ninguém foi criado para isto, mas desejava-a. Por isso, ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, o cego, impelido pelo Espírito, gritou por uma vida nova. A fé, de que Bartimeu dá prova, é uma adesão total a Jesus e à sua proposta de salvação, porque logo que recupera a vista começa a seguir Jesus, tornando-se o modelo de um verdadeiro discípulo. Liberta-se da sua vida sem qualidade, simbolizada na sua cegueira, entra na vida verdadeira e eterna que Deus lhe oferece na pessoa de Jesus e, cheio de alegria e entusiasmo, segue-O, amando e dando a vida como Ele.

A segunda leitura descreve a forma de Jesus actuar, isto é, a sua particular atenção aos mais fracos e marginados. O autor da carta convida-nos a olhar para Jesus, feito um de nós pela sua encarnação. Durante a sua vida terrena experimentou a nossa fragilidade, por isso pode compreender os nossos erros e olhar para nós com bondade e misericórdia. No final da sua vida sobre a terra, entregou-se à morte de cruz, com um amor sem limites. Foi por esta razão que o Pai o ressuscitou e o constituiu sumo-sacerdote nos céus. É aí que, incessantemente, continua a compadecer-se de nós e a salvar-nos.

A Palavra convida-nos a colocar-nos diante do Deus trinitário, que nos foi revelado em Jesus Cristo, com toda a confiança e esperança. O Pai/Mãe faz caminho connosco e liberta-nos dos nossos medos, desesperos e decepções. Em Jesus, seu Filho, torna-se solidário com as nossas alegrias e sofrimentos, angústias e esperanças. Anima-nos com a força do seu Espírito, para que nos comprometamos com os nossos irmãos e irmãs, comungando das suas situações existenciais, promovendo os que são humilhados, explorados, colocados à margem… Hoje somos convidados a reforçar o nosso ser discípulo e discípula de Jesus e a lançarmo-nos na aventura do amor, do dom da vida, para que os outros tenham mais VIDA. Como “deixo”, habitualmente, aqueles e aquelas com quem me cruzo? Estão a encontrar em mim uma proposta credível de vida e de salvação?

Leituras do XXX Domingo Comum – Ano B: Jr 31,7-9; Sl 126 (125); Heb 5,1-6; Mc 10,46-52

Deolinda Serralheiro