Quase todos somos capitalistas

Questões Sociais Quase todos nós contestamos as «grandes superfícies» comerciais e o poder económico em geral; mas quase todos alimentamos esse mesmo poder através dos nossos hábitos de consumo e do contributo que, assim, damos para a eliminação das pequenas empresas de produção e de comércio. Quase todos nos rebelamos contra as desigualdades sociais gritantes; mas não estudamos as suas causas, não fazemos propostas nem experiências válidas, para se atenuarem, e não pomos em causa os nossos rendimentos, por mais altos que eles sejam. Quase todos nós contestamos os governos, pelas mais diversas razões, com ou sem fundamento; mas não reparamos que eles é que têm assegurado a conciliação possível entre interesses divergentes, têm viabilizado os direitos sociais, de tal maneira que a maior parte dos portugueses recebe mais do Estado que aquilo que paga. Muitos de nós fazem greves, mesmo em empresas deficitárias; mas, contrariamente aos objetivos, não atingem o grande capital e prejudicam inúmeros trabalhadores, outros cidadãos, empresas, o Governo e a própria governabilidade do país.

Quase todos nós contestamos o sistema económico capitalista, indignados com a concentração de riqueza, de rendimentos e de poder e com a injustiça fiscal; mas não tomamos consciência de que a nossa contestação favorece precisamente o capitalismo financeiro mais improdutivo, mais explorador e menos criador de empregos. Na verdade, esse capitalismo sabe deslocalizar-se para onde mais lhe convém, e sabe tornar-se invisível transformando ativos produtivos em ativos financeiros e estes em negócios meramente especulativos. A capacidade para o capital financeiro se tornar invisível utiliza, com toda a naturalidade, o recurso aos «paraísos fiscais» e à ilegalidade mais ou menos grave. Acresce a tudo isto que esse capital, quando internacionalizado, pressiona os mercados a favor do aumento dos juros que pesam sobre as nossas dívidas.

Tudo seria diferente se procurássemos resolver, em cooperação, os diferentes problemas que vão surgindo, se concebêssemos um sistema económico diferente e se procurássemos implantá-lo gradual e pacificamente. No que respeita aos cristãos leigos, bom seria que não se limitassem à denúncia e à proclamação de princípios, embora estes sejam indispensáveis, mas procurassem levá-los à prática, testemunhando a sua validade e assumindo as limitações inerentes às contingências humanas (cf. «Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nºs. 571, 568 e 276-280).