Quatro notáveis aveirenses na missionação na insulíndia (Timor, Solor, Flores)

DOM CARLOS FILIPE XIMENES BELO

Bispo Tit. de Lorium e Administrador Apostólico Emérito de Dili-Timor Leste

No dia 13 de Abril, IV Domingo da Páscoa, ocorre o 45º Dia Mundial das Vocações. A este propósito, tomo a liberdade de apresentar aos leitores do “Correio de Vouga” uns breves traços de quatro beneméritos filhos do Distrito de Aveiro, que, no século XVI, XVII e XIX, contribuíram de maneira especial para a evangelização nas Ilhas de Timor, Solor e Flores.

1.º – Dom Frei Jorge de Santa Luzia, O.P. Foi o primeiro Bispo da nova Diocese de Malaca (1558-1576). Natural de Aveiro e filho do real convento de Nossa Senhora da Misericórdia, foi sagrado Bispo em Lisboa em 1558. No ano seguinte, partiu para Goa, onde se demorou por catorze meses, assumindo o cargo de Governador do Arcebispado. Tendo chegado a Malaca nos princípios de 1560 e ouvindo dizer que nas Ilhas do Sul havia núcleos dispersos de cristãos, Dom Jorge de Santa Luzia mandou um primeiro grupo de quatro dominicanos a fundar a Missão de Solor. Durante mais de cinquenta anos, Solor foi a sede de todas as missões da Insulíndia. Depois de anos de trabalhos e canseiras, Dom Jorge de Santa Luzia pediu a resignação ao Papa Gregório XIII, e foi viver para Goa como um simples frade. Segundo o Agiológio Lusitano, o primeiro bispo de Malaca, teria falecido no dia 18 de Janeiro de 1578. Foi sepultado no cemitério comum, “como ele ordenara e pedira na sua vida, querendo imitar a humildade de seu grande patriarcha” (São Domingos de Gusmão).

2.º – Dom Frei Miguel Rangel, O.P. Foi grande organizador de missões e restaurador da fortaleza de Solor. Era natural de Aveiro, e professou no convento dominicano dessa cidade, no dia 18 de Outubro de 1589. No convento de Nossa Senhora da Misericórdia, Frei Miguel Rangel foi lente da Sagrada Escritura. No convento dominicano de Benfica, exerceu o cargo de Mestre de Noviços. Em 1614, partiu para Goa, onde exerceu o cargo de Vigário geral da Congregação da Índia, prior do convento de São Domingos e Comissário do Santo Ofício. Em 1624, encontrava-se em Portugal recrutando missionários para Solor e Timor. Em 1628, partiu de Malaca para Solor, levando consigo doze dominicanos, que foram posteriormente distribuídos por diversas ilhas (Adonara, Flores, Ende, Solor). Mais tarde, dois desses dominicanos exerceriam a acção missionária em Timor: Frei António de São Jacinto, que se tornou célebre pela conversão ao cristianismo de vários reis e rainhas e a sua sujeição à coroa portuguesa. É considerado um dos apóstolos de Timor. Outro dominicano, foi o padre fr. Cristóvão Rangel, que missionou no reino Silawan (no norte da Ilha de Timor). Como se disse, Frei Miguel Rangel, com a ajuda das autoridades de Macau e Malaca, reconstruiu a fortaleza que tinha sido atacada e destruída pelos holandeses em 1613. Ele foi Vigário geral das Cristandades e permaneceu em Solor até ao ano de 1632, ano em que foi nomeado, pelo Rei de Portugal, Bispo de Cochim. Depois de ter sido confirmado pelo Papa, partiu para a sua nova diocese e ali permaneceu até a hora da morte, ocorrida a 14 de Setembro de 1646.Hoje, Dom Frei Miguel Rangel é lembrado pelos cidadãos e cristãos de cidade de Larantuca (Flores), porque a Diocese decidiu dedicar-lhe a rua principal que dá para o paço episcopal. Chama-se, na língua indonésia: “Jalan Mgr. Miguel Rangel”, isto é, “Rua Dom Miguel Rangel”.

3.º Frei José da Anunciação Gouveia, O.P. (1798-1822). Nasceu em Salreu, Diocese de Aveiro, no ano de 1757. Fez o noviciado no convento dominicano da Batalha. Em 1772, foi enviado para as Missões do Oriente, juntamente com outros onze religiosos dominicanos. Foi ordenado sacerdote pelo Arcebispo de Goa. No Convento dominicano foi lente de Filosofia e de Teologia. Na opinião de Santa Catarina, Frei José da Anunciação “era o melhor elemento que os Dominicanos tinham em Goa”. Com apenas 22 anos de idade, foi enviado para as Missões de Timor e, mais tarde, seria nomeado Governador do Bispado de Malaca, com residência em Dili (Timor). Decorria o ano de 1798. O vice-rei da Índia, D. Bernardo José Maria de Lorena, 5º Conde de Sarzedas, nas suas Instruções ao Governador de Timor e Solor, Capitão Vitorino Freire da Cunha Gusmão, deu esta informação acerca do Padre Fr. José da Anunciação: “Um padre exemplar, de boa conduta e amigo do povo”. Em 1810, o então Governador do Bispado foi nomeado Governador interino de Timor e Solor, sucedendo ao Governador Bernardo Pessoa. Foi um governador do Bispado que viveu o drama da diminuição dos dominicanos em Timor e em Solor. Pois, em 1801, os dominicanos em Timor eram apenas cinco, e em 1811, era ele o único padre em Timor. Em 1822, regressou a Portugal.

4.º Frei António da Cruz, O.P. Era filho do real convento de Nossa Senhora da Misericórdia de Aveiro. Partiu para Goa, em 1559, na companhia do Bispo Dom frei Jorge de Santa Luzia. Foi o fundador da primeira Missão de Solor, em 1562, e construtor da fortaleza, em 1566. Em Solor construiu as igrejas de Nossa Senhora da Piedade e de São João Baptista, e fundou um seminário menor, onde se ensinava a ler, escrever, contar e aprender o latim. Depois de um longo e frutuoso apostolado, Frei António da Cruz faleceu em Solor no dia 17 de Fevereiro de 1590, em odor de santidade. No seu livro “Ethiopia Oriental”, Frei João dos Santos afirma: “O Padre Frei António da Cruz, que fundou esta christandade, o qual é tido por santo, e dizem que fez alguns milagres.” Outro cronista dominicano escreve, em 1679: “O padre Frey António, por sua inculpável vida e virtudes acreditadas com milagres…”

No século XVIII, os Dominicanos fundaram dois seminários em Timor: um em Oe-Cusse (1739) e outro em Manatuto (1746). Não dispomos de dados relativos aos sacerdotes saídos daquelas duas instituições. Hoje (2008), o Seminário Maior de Dili, fundado em 2000, tem 47 estudantes de Filosofia e Teologia. O Seminário, fundado em 1936, tem 200 alunos. O número de Padres nativos, timorenses, é de 140, entre diocesanos e membros de Ordens e Congregações religiosas. Tudo isso é fruto do trabalho incansável de missionários portugueses, açoreanos, goeses, italianos e espanhóis e filipinos. E os Timorenses querem corresponder a tão grande generosidade e sacrifício. Por isso, começa a haver missionários timorenses na Indonésia, Argentina, Brasil, Moçambique, Egipto, Papua Nova Guiné, Taiwan… E, ao escrever esta crónica, presto homenagem aos sacerdotes que continuam a ajudar as Missões de Timor, incluindo os da Diocese de Aveiro. A todos, obrigado e bem-hajam!

Os nomes destes quatro dominicanos aveirenses ficarão sempre ligados à evangelização de Timor. Que, neste Dia Mundial de Vocações, o Senhor continue a chamar Jovens aveirenses para a Sua Messe, quer em Portugal quer no Mundo.

Mogofores, 28 de Março de 2008.