Que é ser mulher? – Um testemunho pessoal

Partilha de uma leitora, na proximidade do Dia Mundial da Mulher (8 de Março)

Com muita simplicidade, vou responder à pergunta em epígrafe, na linha daquilo do que penso e sinto, como mulher que sou… Contudo, admito a diversidade de outras opiniões.

Ser Mulher é aceitar a missão de namorada honesta, de esposa delicada, de profissional idónea, de dona de casa consciente e de mãe extremosa… a coisa mais maravilhosa que pode acontecer a uma Mulher. Acho que só assumimos o estatuto de Mulher, quando amamos e procriamos e vivemos dependentes de um amor que tudo preenche e tudo compensa. Ser Mulher, amar e ter filhos… eis a razão pela qual se completa a minha missão – aquela com que Deus me dotou.

Mas ser Mulher, actualmente, é ser alguém que passa por ter que estar sempre disponível, em casa, no emprego e na sociedade. Ser Mulher é ser alguém que, depois de um dia atribulado no trabalho e de cansaço, atende o marido, apaparica os filhos, cuida da casa, lava a roupa, confecciona a comida e ainda tem capacidade para gerir o seu tempo (claro que há excepções). Ser Mulher é ser alguém que sacrificadamente deixa o sofá e as novelas, para se envolver na política, no asseio da igreja, no grupo coral, na catequese, na participação em formações e em reuniões. Ser Mulher é ser alguém que canta e sorri à vida, dá uma palavra amiga e faz de conta que tudo suporta com alegria. Sim, a Mulher tem dias em que carrega com o mundo às costas. Procura cumprir tudo direitinho. E põe uma máscara para que ninguém entenda o que vai lá dentro do seu ser. E tantas vezes acontece que o marido, além de não ajudar financeiramente, não colabora nas horas em que podia com ela dividir tarefas porque gasta o tempo com os seus amigos. E a Mulher, esposa e mãe, não tem tempo para si.

Se adoece, no emprego todos sabem que sofre e como sofre, mas não percebem por que é tão ponderada em raciocínios, disponível no serviço, amiga de todos, respeitadora, simpática, trabalhadora. Quando regressa depois de um tempo de baixa, ouve dos colegas: – “Já vieste?… Fizeste tanta falta!…” E ela sorri… É que por muito que sofra e chore, reza no caminho enquanto conduz o seu carro e, mal vê os colegas, põe de lado a tristeza e torna a sorrir. Não leva para o trabalho profissional o que a aflige. É admirada e procurada para dar conselhos. É diferente, ainda que isto possa ocasionar inveja ou pena a quem não consegue ser assim.

Com o andar dos meses e de saúde combalida, a aposentação do emprego é inevitável e a vida e o mundo fogem-lhe do chão. Porém, anos a fio, ela vai aceitando a bola de neve que, de “cancro na alma”, vai empurrando. Sofre e chora às escondidas, porque o espelho lhe lembra constantemente que não é a mesma. Todas as manhãs, movida por necessidade quase natural, ela, mesmo sem forças, sai da cama, ganha energia, e de óculos de sol, para que ninguém note as olheiras ou os momentos mais sofridos, vai virada ao cemitério – um local que passou a não recear – entrando depois na igreja. Não reza a dizer palavras, mas ora em pensamento a sós com Deus, chora silenciosamente e questiona… Porquê? O que fiz? Pede-Lhe forças para sorrir, quando chegar a casa… No diálogo com Deus, vai descobrindo que o caminho é esse, o da cruz… o do sacrifício… o do sofrimento… Mas, tem a certeza de que, um dia, será recompensada na vida continuada no Além.

Depois de entender, aceita e sorri à vida. Faz de tudo e a todos os que dela necessitam, tentando com isso ser pára-raios das suas próprias emoções contidas. Ganha energia. A fé fortalece-a, apesar de muitos não entenderem; e, embora as circunstâncias a levem a pôr o disfarce de uma hipocrisia, ela é autêntica e diferente. Aponta o caminho e derruba quem quer espezinhar aquele que sobe na vida, porque ainda arranja tempo, de noite e por opção, para provar a si mesma que, para se formar e informar, é capaz de estudar e fazer tarefas que na sociedade a fazem esquecer de si e a levam a encontrar uma nova razão de viver. Ficam para trás as frustrações e, como “a videira que podada ainda dá mais fruto”, esta mulher sente-se então especial… escolhida, eleita, amada num amor que a completa e lhe enche a alma, só porque entendeu a mensagem, segue sem receio de nada, no meio de dificuldades, o projecto e a missão que Deus tinha e tem para si.

Mas há dias cinzentos na vida desta mulher. Contudo, ela sabe que, depois das nuvens, o sol brilha… E volta a sorrir confiante e inspirando confiança, com objectivos a curto prazo, mas bem definidos. Quando se sente em baixo, fica em casa. Evita as perguntas. Porque, se é apanhada pela tempestade, pode ser inconveniente para outrem, apesar de achar que tudo o que diz lhe é conveniente.

Neste tempo de Quaresma, ser mulher assim não é difícil, porque ela já não usa máscaras. É ela própria, sincera, autêntica, crente. Mas… ela tem que mudar algo… talvez ser mais moderada, descansar mais… Deus também não quer tanta correria e ela às vezes parece um bombeiro pronto a acudir a todos os fogos. Que rico dom que recebeu e que a torna feliz! Sim, é feliz e sorri sempre, apesar da alma que tanto chora, pois tudo o que faz é por amor, ultrapassando os seus próprios limites. Todavia, não se esqueça que esta mulher precisa de carinho, para ser emocionalmente equilibrada, apesar de desabafar no que faz e no que escreve… Esta mulher gosta de ser simpática, de ser prestável e de cantar… com o coração. De onde lhe vem esta audácia? Novamente lembro que de tudo ela é capaz porque fala muito com Deus… Trata-O por Tu… Então, pressente-se favorecida por um fogo que, sem queimar, arde e aquece. Às vezes, tenta-se em Lhe cobrar por não lhe dar tréguas… Esta mulher, que sou eu, mesmo julgando-se forte, é frágil… E que mudar, se nem consigo descobrir em quê para ser melhor?… Hoje eu aceito o meu projecto… Sou mulher; e isto me basta… Eis o meu retrato.

Sei que ser Mulher é ser assim: – “Sair de mim para ir ao encontro dos outros, apesar de ser casada, com filhos e doente, católica. Sinto uma paz incrível na e em Igreja, onde tudo se esquece… para ser mais forte na vida, entre as minhas dores. É em Deus que vou buscar as vitaminas, para continuar a sorrir e a querer que tudo à minha volta seja uma canção harmoniosa, que faz desta vida uma pauta de notas irreverentes, que me extasiam de alegria e felicidade”.

Ser Mulher é ser Mulher somente… Verdadeira e atenta a tudo e a todos. Fazendo felizes os que a rodeiam, ela é feliz; mesmo que não tenha nada para dar, sorri somente… como ela sabe. Experimentando isto, a Mulher pode transmitir um pedacinho de felicidade, desde que aceite os outros como são, com todas as suas limitações, como ela as tem… E Deus vai compensando, pois, se num dia lhe dá a escuridão das trevas, no outro ilumina-a com a claridade da esperança, que a traz de volta a vida, a Vida de Mulher…

Caro leitor, agradeço-lhe que me mande parar, porque, se não me fizer tal favor, vou continuar a escrever sem me deter, durante dias… Falei de mim e do que me tem rodeado. Se o ajudei… óptimo. Se não o ajudei, aceite isto mesmo com erros, pela pressa dos pensamentos, como um desabafo em turbilhão… Eu sou assim… uma amiga que caminha ao lado e não à frente ou atrás de alguém…

Uma leitora