Que fazer?

Questões Sociais Como se referiu no artigo anterior, é muito provável que a recuperação da crise actual mantenha as desigualdades sociais, podendo até agravá-las. As medidas compensatórias, de carácter social ou económico, irão provavelmente a reboque da inércia propiciadora de injustiça social, sem possiblidade de a neutralizar. Que fazer então? – Ninguém possui a resposta, mas vale a pena adiantar algumas hipóteses.

Em termos humanistas, a principal questão que se nos coloca é porventura esta: como se pode garantir que seja respeitada cada pessoa como centro da vida social e política? (Cf. o nº. 25 da «Gaudium et Spes»). Não existem respostas satisfatórias a esta pergunta, muito embora tenha ocorrido uma evolução favorável ao longo da história, em muitos países. Apesar dessa evolução, a política e a acção social ainda continuam a ser concebidas «de cima para baixo»: os centros de poder tomam as suas decisões com base em estatísticas, noutras informações abstractas e em pressões diversas; e deixam de fora as pessoas e situações não conhecidas por eles e aquelas para as quais não existem disponibilidades financeiras. Fica assim atrofiado o processo decisório «debaixo para cima»; isto é, o processo de decisão baseado no contacto directo com as pessoas, na sua luta pela vida e nas diferentes actividades e relações; mantém-se a exclusão dos excluídos, mesmo que porventura diminua o seu número.

Tal dinamismo de exclusão sistemática seria neutralizado na medida em que se conjugasse o processo de decisão de «cima para baixo» com o seu inverso. Este implica, em especial: o respeito pela dignidade, iniciativa e actividades de cada pessoa; a cooperação local na procura de soluções para os seus problemas; a existência de pontes de contacto directo entre os dinamismos locais e os centros de poder, sem sem se excluir nenhuma pessoa; e o acompanhamento de cada caso ou problema social até se alcançarem soluções satisfatórias.

Isto será possível? – A experiência do passado é muito pouco abonatória. Mas, por outro lado, já foram adoptadas medidas políticas orientadas nesta direcção. Refiro, em especial: a «Rede Social»; o apoio ao desenvolvimento local; as resoluções parlamentares relativas à pobreza; e a concertação social. Cada uma delas irá ser objecto de breve ponderação nos próximos artigos. E, muito embora não tenham sido executadas, até agora, nos moldes previstos, deixaram enunciada uma orientação política fortemente personalista, que talvez contenha sementes de um futuro mais promissor.