Que fiz eu para merecer isto?

Livro Ensaio de Anselm Grün sobre ao sofrimento. “A incompreensibilidade do sofrimento é uma parte da incompreensibilidade de Deus”.

O que fiz para merecer isto?

A incompreensível justiça

de Deus.

Anselm Grün

Editora Vozes, 2007

158 Páginas

Dificilmente uma pessoa não fará, ao longo da sua vida, a pergunta do título deste texto. Ou outras como estas: Por que é que Deus permite o sofrimento? Por que não o impede? Por que é que teve de atingir precisamente a mim? Qual a intenção de Deus, visto que agora está em ruínas tudo aquilo sobre o qual construí a minha vida? Deus é cruel? Não tem compaixão de mim? É injusto? São actualizações ou novas versões da pergunta eterna sobre o mal – ou antes, o sofrimento – no mundo.

Ilude-se quem achar que pode encontrar uma resposta cabal para estas questões. Por outro lado, quem as coloca prefere – sem dúvida – ver o seu sofrimento terminar, haja ou não uma resposta para o mesmo. Anselm Grün sabe disso, pelo que afirma na introdução deste livro: “Não pretendo com estas ideias trazer soluções, mas uma ajuda para colocar a experiência pessoal do sofrimento num horizonte maior. O pensar cria uma distância em relação à minha dor. E às vezes é precisamente essa distância que traz alívio para o sofrimento. Mas o pensar não acaba com o sofrimento. Ele é um caminho para a sua compreensão. Apesar de toda a incompreensibilidade do sofrimento, é uma necessidade primitiva do ser humano entender o seu sofrimento. Só quando entendo a minha vida posso ser eu mesmo(a) e suportar a minha dor” (pág. 10).

Ao longo de 158 páginas, o monge beneditino refere várias respostas teológicas ao sofrimento, entre as quais as interpretações dos evangelistas sobre o sofrimento de Jesus (que nada disse sobre o porquê do sofrimento, mas deu-lhe um novo sentido, pág. 43). Numa segunda parte, apresenta as explicações dos místicos, resumidas neste parágrafo: “Não podemos dizer que o sofrimento seja necessário para que alguém se torne mais maduro e mais sábio. Mas frequentes vezes temos sentido que são principalmente as pessoas provadas pelo sofrimento (…) que irradiam na velhice sabedoria e bondade”.

Na última parte, sobre casos concretos, é onde mais surge o sentimento de protesto para com o “Deus de amor que quer sempre o nosso bem”. Grün apresenta casos típicos de sofrimento, como o dos pais que perdem um filho, a homossexualidade, a droga, o desemprego, o divórcio, as catástrofes da natureza… Sem pretender resumir a resposta do autor, diga-se que ajuda mais perguntar pelo “para quê”, do que pelo “porquê”. Por outro lado, no acto de perguntar – “é bom colocar estas perguntas”, diz – , no acto de querer entender Deus, talvez se adquira a “profissão de fé de que Deus é bem diferente e não se pauta pela nossa teologia, mas é e age segundo a sua própria natureza” (pág. 151).

J.P.F.