Que Quaresma?

A Quaresma vai-se desenrolando, mais ou menos carregada de rituais celebrativos, de propostas de gestos significativos… Importa saber se tudo isso exprime e motiva verdadeira renovação interior. Qualquer proposta de caminhada não se justifica se não insiste e apoia uma mudança interior.

Aliás, a conjuntura global de dificuldade é um tempo favorável para a profunda alteração de hábitos sadios: sobriedade de vida e partilha fraterna – dois pilares de uma verdadeira penitência quaresmal.

Sabemos que uma coisa é “apertar o cinto”, por força das circunstâncias, outra coisa é alterar a mentalidade: de um consumo inveterado para um estilo de vida austero. Sabemos que uma coisa é “dar antes que o roubem”, outra coisa é alterar as convicções: mesmo do que é nosso, somos administradores; a nossa posse só é legítima se se tornar mais “rentável” para o bem comum.

Despojados, voluntariamente, do que é acessório – verdadeiramente acessório! – o nosso espírito voa para preocupações mais profundas: do sentido da vida, da consistência das relações, da atenção aos outros, da vida espiritual…, que não são alienações, mas contributos consistentes para um dia a dia sóbrio, mais liberto, mais feliz!

“Por que vos afadigais com o que haveis de comer e de vestir”?… – Jesus não convida à preguiça, ao desleixo, à incúria. Tão somente nos recorda que o essencial basta, que, por mais que nos afadiguemos, não seguramos a vida em nossas mãos, que ao esforço honesto corresponde a serenidade de quem sabe que Deus está neste dia a dia atribulado, para suscitar a iniciativa, ajudar a encontrar caminhos de solução. Escutá-lo (essa é a verdadeira oração – o outro pilar da Quaresma!) espevita o espírito e o coração humano para descobrir novas vias de obviar às necessidades de todos.

O exame de consciência que se impõe, sobretudo a tantos de nós que nem encontramos pecados na nossa vida, deveria ser precisamente esse de averiguar como nos relacionamos com os bens materiais, que uso fazemos do que nos é dado usufruir, com que transparência gerimos o que o Senhor nos concede, para nossa realização no concerto do bem de todos.