Quem é o Filho Pródigo?

Antelóquio desnecessário – Esta poesia não se explica. Eu não vou explicar nada… apenas referir que, hoje, o meu ‘exercício’ de confessor, andou por aqui… Fui retirado a contragosto das tarefas ordinárias e profissionalizantes, para ‘atender–de-confissão’ e meio contrafeito, fui e consegui sair eu próprio confessado. Sem presunção ou desespero. Confissão não é só psicanálise ‘a baixo custo’. Confissão não é fugir da responsabilização. Confissão não é apenas terapia e libertação. Confissão é sobretudo Pecado perdoado (amor plenificado…) e Graça, no caminho, na verdade e na vida, do mestre Jesus. Sou muito limitado ao perdoar com o meu ‘nome-rosto’; posso apenas perdoar em nome-rosto de Cristo, que se faz presente numa Igreja-Comunidade, também ela, como nós humanos, santa e pecadora! Este “Filho Pródigo” sem consultas ou redenções a ‘gosto’ sou eu próprio. Ou o meu próprio Eu – Museu de Ontens e Hojes – é este Filho Pródigo Universal. Que bom poder falar em ‘Voz Alta’ e, não policiar a nossa Consciência. Dois ouvidos são mais belos que dois olhos, duas pernas, dois cotovelos, duas… Ouvidos, silêncio, e acção: a maravilha do Perdão está diante de ti.

Fica a Poesia já me alonguei!

Filho Pródigo (*)

Abre-me a Porta

Pai!

Abre-me a Porta!

Porque venho cansado

e derrotado

desfeito

pobre

e nu

e envergonhado

Tudo esbanjei

Só trago

encravados no peito

nele bem entranhados

os pungentes punhais

de todos os Pecados Capitais

Delapidei o rico Património

do teu Amor

na subida

arrogante e pressurosa

da Montanha da Vida

E hoje conheço a Dor

Da descida agoniante

trémula e vagarosa

pela encosta abrolhosa

na que nos acompanha

o impiedoso demónio

da consciência dorida

da fortuna malgasta

dissipada

e a existência perdida

Abre-me a Porta

Pai!

E acende a luz da Casa

que outrora foi a minha

quando eu era inocente

criancinha

Não me tardes

Senhor!

Abre-me a tua Porta

luminosa

depressa, por favor!

(*) FONTE: ERNESTO GUERRA DA CAL in Futuro Imemorial (Manual de Velhice para Principiantes), Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1985, pp.112-113.