“Quem está em luto necessita de alguém que se identifique com a sua perda”

Ana Luísa Silva, de Pombal, é psicóloga clínica com pós-graduação em cuidados paliativos. Após ter perdido o marido, num acidente de viação, juntou-se à Apelo (Associação de Apoio à Pessoa em Luto) e criou em Pombal um núcleo para apoiar outras pessoas que vivem situações de perda. Esteve no congresso “O Luto em Portugal”, nos dias 4 e 5 de maio, na Universidade de Aveiro, para falar da sua experiência de conselheira do luto. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

Correio do Vouga – Como se tornou conselheira do luto?

Ana Luísa Silva – Tudo começou com uma perda minha há três anos. O meu marido morreu num acidente de viação. Comecei, então, a ler os livros sobre o luto do professor José Eduardo Rebelo [professor de biologia na Universidade de Aveiro; autor de livros sobre o luto e fundador da associação Apelo, após ter perdido num acidente, há 18 anos, a mulher, grávida, e a filha de sete anos]. Entrei em contacto com ele e tornei-me voluntária da Apelo [Associação de Apoio à pessoa em Luto]. Ele lançou-me o desafio de montar em Pombal um Capelo, isto é, um centro de apoio à pessoa em luto, do qual sou coordenadora. Depois tive de fazer o curso de conselheiro do luto. Faz sentido, como coordenadora, ter uma experiência de luto para poder apoiar quem lá se dirige.

Como é o grupo o seu trabalho no Capelo de Pombal?

Somos dozes pessoas e reunimos desde há dois anos. Basicamente, coordeno um grupo de entreajuda. É com eles que trabalho. São pessoas heterogéneas, desde pais que perderam os filhos a viúvas, mulheres que perderam o seio, senhoras que têm maridos com doenças oncológicas. Neste grupo, toda a gente partilha uma vez por mês, durante duas horas. Eu modero o grupo. As pessoas sentem-se mais à vontade para fazer a partilha porque sabem que eu também as consigo compreender, visto que passei pela mesma situação.

Pelo que acaba de dizer, não se vive o luto apenas em situações de morte…

Não, o luto não é só morte. É perda de estatuto social – começamos a ver com alguma frequência casos destes por causa da perda de emprego -, é ablação de um seio, a perda de um membro corporal, a perda de um filho, o nascimento de um filho deficiente. Normalmente, os pais não fazem o luto. Mas este é um caso da chamada expetativa de afeto. Pretendemos um filho saudável e perfeito e, a páginas tantas, aparece-nos um filho deficiente. Temos de aprender a viver com isso. Temos de fazer o luto da criança que imaginávamos e aprender a viver com uma criança portadora de deficiência.

Em resumo, faz-se luto numa situação de perda grave…

É isso que tentamos fazer perceber à sociedade. Não se trata só de morte.

Nós hoje já não sabemos lidar com as situações de perda?

As pessoas têm tendência a fecharam-se, a viverem a sua dor sozinhas. Não é necessário isso. Daí os grupos de partilha, de interajuda. Há grupos similares nos alcoólicos anónimos, nos toxicodependentes anónimos. Quando se partilha o que está em causa, que é a dor, torna-se mais fácil.

Nos grupos de partilha, uma vez por mês, durante duas horas, as pessoas podem estar e simplesmente não lhes apetecer falar, apenas ouvem. A pessoa partilha a sua dor e percebe que não está sozinha. Quando alguém está em luto têm muita tendência para se focar no problema e falar muito dele. Acontece é que a sociedade não está disponível para esse tipo de situações. A família não está disponível, os amigos não estão disponíveis, até porque a pessoa está sempre a recalcar o problema que tem. Eles necessitam de alguém que os ouça e que se identifique com a perda, que perceba que é possível ultrapassar isto.

Nestas situações, pergunta-se frequentemente: “Por que é que me aconteceu a mim?”

Sim, mas a questão é: por que é que não havia de acontecer a ti? Tu não és diferente dos outros. E a pessoa acaba por perceber que realmente não é diferente dos outros, é igual. Se sou igual, vou ter de ultrapassar isto da melhor forma possível, ultrapassando as expetativas e vendo a vida de maneira diferente, tendo em conta a sua perda.

A fé de uma pessoa ajuda-a a viver o luto?

Não interferimos na religião. A parte espiritual e psíquica da pessoa, todo o seu conhecimento, é valorizado e respeitado. Não impomos absolutamente nada nos grupos. A pessoa pode ser ateia, crente, católica…

A minha pergunta ia noutro sentido. Pelo facto de se acreditar em Deus, a perda, principalmente pela morte, não poderá ser integrada com outro sentido?

Com certeza que a religião tem influência. Quando sentimos uma perda muito significativa temos necessidade de nos agarramos a algo. E inclusive de culpar alguém.

Responsabilizar Deus?

O que é curioso é que geralmente culpamos a pessoa que perdemos: “Por que é que me abandonaste?” Quando estamos a culpar alguém, canalizamos a nossa raiva para a pessoa que nos abandonou. Em certo sentido, temos uma abordagem egocêntrica, porque a nossa raiva nos leva a pensar que quem partiu é que nos quis deixar.