Quem nos governa?

Questões Sociais As notícias relativas à criança inglesa desaparecida no Algarve tornaram mais patente um problema da maior gravidade que se observa em todo o mundo: o número de crianças desaparecidas eleva-se a milhões e, embora o problema grasse mais nos «países menos desenvolvidos», também se observa nos outros.

Particularmente chocante é o facto de as autoridades oficiais se revelarem impotentes face a tão dura calamidade. É caso para perguntarmos: quem nos governa efectivamente?

A prática política séria deveria incluir a análise periódica da cadeia de poder, a fim de evitarmos o infantilismo das críticas e das expectativas. Na falta de tais análises, esboça-se aqui uma hierarquização integrada por doze escalões; poderiam ter sido seleccionados muitos mais ou muitos menos, de acordo com diferentes critérios adoptados; estes doze, porém, já nos dão uma ideia da realidade em presença. As justificações para os lugares atribuídos a algumas entidades serão abordadas em próximos artigos.

Por ordem decrescente de poder efectivo ou «fáctico» (legal e formal, ou não), parece realista a seguinte hierarquização: 1º. – o mundo subterrâneo, à margem da lei e da moral; aí predominam o crime em geral e, nele, o tráfico de pessoas, de órgãos do corpo humano, de estupefacientes e de armas, bem como as organizações violentas, com ou sem a designação de «terroristas». Este poder concentra em si uma parte significativa da riqueza e rendimentos mundiais, escapa a todos os controlos, acha-se infiltrado por toda a parte e não obedece a qualquer autoridade, embora ele próprio esteja profundamente hierarquizado; 2º. – o grande capital financeiro, que, apesar da sua injustiça intrínseca, procure actuar em conformidade com a lei; 3º. – as grandes empresas e os grandes grupos económico que, apesar da transferência de fundos para os mercados financeiros, bem como das deslocalizações e da concentração de riqueza e poder, actuem na produção de bens necessários, dentro do quadro legal vigente; 4º. – a União Europeia e algumas outras organizações internacionais cujo poder condiciona, muitas vezes positivamente, a soberania nacional; 5º. – o poder judicial; 6º. – as forças de contestação, mais ou menos sistemática; 7º. – a Assembleia da República; 8º. – o Governo; 9º. – o Presidente da República; 10º. – as empresas, trabalhadores, famílias e outras instituições, que procuram actuar em conformidade com a lei e a moral, embora com falhas; este grupo é extremamente diversificado, devendo ser desdobrado nalguns subgrupos, quando se proceder a análises mais promenorizadas; 11º. – as pessoas e famílias mais pobres ou oprimidas; 12º. – as crianças.

Estes doze graus podem sintetizar-se em quatro conjuntos de entidades: grandes interesses (nºs. 1 a 3); forças contestatárias (nº. 6); o povo em geral e as suas instituições nºs. 4, 5,7, 8, 9 e 10); e o povo mais oprimido nº. 11 e 12).