Quem sonha o bem dos outros e faz do sonho amor não morre

Fiz o caminho a recordar muitas coisas que foram, em tempos, motivo de alegria, de preocupação, de algum sofrimento, que tudo faz parte da vida. A obra que ia visitar é o último elo de um sonho, que amor e coragem não deixaram transformar em pesadelo.

Ia comigo a memória de um rosto sorridente, de uns olhos vivos, de um ar de quem está sempre com pressa, de uma têmpera de crente para quem a fé são obras.

Nasceu paredes-meias com Frei Gil. Dois bairradinos que fervilhavam de amor aos mais pobres. Falo do Padre Rei e do seu sonho. Paróquia extensa, caminhos maus, famílias isoladas. O zelo não tinha fronteiras e, como imaginativo é sempre o zelo que nasce do amor, as iniciativas multiplicavam-se: templos em todos os lugares, aparelhos de televisão em todos os templos, catequeses aos adultos gravadas e transmitidas, colaboradores que se multiplicavam… Dava impressão que nada estava acabado, mas que tudo estava ao serviço, como ele próprio. Ainda disponível para encostar os seus ombros a outros ombros para defender a Igreja e a liberdade ameaçada.

A obra social impunha-se, porque se impunha resposta a idosos e famílias. E o Padre Rei aí vai pelas Américas, do norte e do sul, a pedir e a recolher ofertas. Nas fronteiras portuguesas, faz-se mendigo junto de emigrantes e turistas. Entrega para o centro o património. A obra foi crescendo. Em 1984, inaugurada. Tudo por acabar, mas tudo a funcionar. Os espaços iam-se acoplando uns sobre os outros. A necessidade de servir assim obrigava. Para ele, o importante não eram os projectos, era o projecto.

Um dia desencadearam-se ódios e calúnias, vindas de dentro e de fora. Ninguém que faça o bem, mormente aos pobres, deixa de passar por essa porta, construída por invejas, ressentimentos, ânsia de mando e de prestígio. A onda encontrou eco nos serviços oficiais. Não era de estranhar. Vieram inspectores. Viram e ouviram de fora. Sentenciaram, sem escutar o “réu”: a obra tinha muitos defeitos, o seu director era incompetente Devia fechar! Sentença dada, bispo avisado. Uma teia de mentira e injustiça. Veio um homem do governo falar comigo. “A haver réu, lhe disse, então será o bispo. Para o Padre Rei, só uma bem merecida estátua e gratidão e reparação”. Triunfaram a verdade e o bom senso. Ninguém pode apagar o sol, nem cortar as raízes ao sonho.

O Padre Rei quis viver e morrer entre os seus velhinhos. Velhinho, doente como muitos deles. O seu amor contagiara outros. Sucessores e paroquianos. Passados anos, que não foram fáceis, o cuidado e o amor de sempre continuam agora em casa nova. Fui ver, que ainda a não tinha visto. Nas paredes, rostos do Padre Rei. Nos rostos de todos, a alegria de se sentirem amados, a decisão de servir e de sonhar.

Recordei, agradeci, tomei consciência, mais uma vez, de que não há poder humano que possa quem ama. Que os sonhadores, que fazem do sonho amor aos outros, não morrem. Nunca.