Muitos pais não sabem sequer o nome da escola dos filhos e do director de turma. Melhorar a educação passa – e muito – pelo interesse dos pais… em casa
“A família é que pode educar a educação”, afirmou de rompante José Manuel Canavarro, respondendo de imediato à pergunta-título “Quem educa a educação?”, que levou ao Centro Universitário cerca de uma centena de pessoas na segunda “Tertúlia à Quarta”, na noite de 10 de Março.
Ex-secretário de Estado da Educação (no tempo de Santana Lopes), membro do Conselho Nacional da Educação e pai de dois filhos em idade escolar, como fez questão de referir diversas vezes, o professor da Universidade de Coimbra defendeu que é necessário “associar a família à educação” em vez de se pensar que a família apenas é importante para questões de “segurança e solidariedade”.
Canavarro notou que “há falta de pais na escola” e defendeu a “capacitação parental” no campo da educação. “A tarefa mais complicada é a de ser pai. Raramente tenho a certeza de que faço as coisas certas e sou confrontado com os erros que cometi”, disse, reportando-se a situação gerais e não apenas escolares, para defender depois um modelo que ajude os pais a acompanhar a educação dos filhos. A experiência inglesa, que na última década criou os “mediadores familiares” para fazer a ponte entre a escola e as famílias, levou a que os alunos das classes mais desfavorecidas tivessem melhores resultados, por vezes graças à ameaça do corte de prestações sociais. O psicólogo defendeu que o corte, excepto em caso de doença ou de reforma, é um meio legítimo de obrigar as famílias a acompanhar a escola dos filhos.
Se em Portugal ainda não existem esses mediadores, uma das formas de melhorar o acompanhamento parental é incentivar os pais a fazerem perguntas aos filhos sobre a escola. A dica, apa-rentemente simples, pode ser causa de aproveitamento escolar. Canavarro revelou cinco perguntas que diz fazer habitualmente aos pais, em conferências ou acções de formação sobre “Educação”. Provocou sorrisos em muitos dos presentes. “Pergunto aos pais: «Qual o nome a escola do seu filho?» Muitos não sabem. «Em que ano anda o seu filho?» Muitos não sabem. «Como se chama o director de turma do seu filho?» Muitos não sabem. «Qual a disciplina preferida do seu filho?» Muitos não sabem. «Qual o melhor amigo do seu filho?» Ainda mais não sabem”.
A escola tem de ser tema de conversa em casa, não só sobre testes e tempos de estudo, mas também para motivar os bons modos dos filhos-alunos. “Os meus filhos não podem dizer mal dos professores”, testemunhou. “Se um deles diz que «a professora é mesmo…», é logo emendado para «uma pessoa dedicada»”, disse, embora reconheça que “alguns professores trabalham mal e são mesmo maus profissionais”. Só que a tónica põe-se na educação “para determinados padrões éticos”. A boa educação motiva-se na conversa em família.
As “tertúlias à quarta” prosseguem no dia 7 de Abril. O próximo convidado desta iniciativa do ISCRA é o P.e António Vaz Pinto, jesuíta, que vai falar do Papa Bento XVI.
J.P.F.
Outras ideias fortes da palestra
Afirmações de José Manuel Canavarro:
ROTINA.“A ordem e rotina são fundamentais para estudar. São altamente estruturantes para que se façam aprendizagens. Os filhos devem ter hábitos e rotinas de estudo. É importante treinar a memória e a atenção”.
Divórcio. “Os estudos provam que o divórcio dos pais é pouco influente nos resultados dos filhos, passados os três primeiros meses, desde que continue o acompanhamento de algum dos pais”.
Exames. “Duvido que haja facilitismo nos exames nacionais. Só sabemos de os exames forem comparáveis com os do passado. Até agora ninguém fez esse estudo”.
Autonomia. “Os passos que têm sido dados na autonomia das escolas têm dado bons resultados. A autonomia não deve ser plena, pois o Estado deve continuar a intervir nos currículos. Pode haver mais autonomia, desde que com mais recursos jurídicos e económicos”.
Competências. “São importantes competências como o domínio das tecnologias, o domínio de uma língua estrangeira e a capacidade para desenvolver projectos. São competências para o séc. XXI”.
Avaliação das escolas. “Devia haver um sistema de avaliação independente das escolas. As entidades que inspeccionam e apoiam a escola deviam estar separadas. É preciso escolas mais auditadas, mais escrutinadas, mais prestadoras de contas e capazes de se reformarem continuamente”.
Políticas educativas. “Os governos não devem fazer tábua de reformas anteriores, nem ignorar tudo o que está para trás, numa política de «terra queimada»”.
