Conselho Diocesano de Pastoral debateu documento que quer mudar a pastoral da Igreja em Portugal
Há muitos sinais positivos na comunidade cristã diocesana, como a colaboração entre pároco e leigos, a proximidade do bispo para com o clero e os fiéis, a delegação de responsabilidades, o voluntariado, valorização do ser sobre o ter (consequência positiva da crise), mas há também práticas a questionar, pessoas das margens e do exterior a ouvir, costumes e linguagem típicos da cristandade que perderam significado para as pessoas de hoje. Estas são algumas das contribuições do Conselho Diocesano de Pastoral (CDP), reunido no Seminário de Aveiro, na noite de 17 de Novembro, para reflectir sobre o texto que lança a discussão sobre a acção da Igreja em Portugal.
Emanado de um grupo na órbita da Conferência Episcopal, o texto é um “instrumento de reflexão” e está a ser debatido em diversas instâncias eclesiais. O CDP, convocado por D. António Francisco para dar a sua opinião, notou alguns “novos sinais” na igreja diocesana, como a dinâmica sinodal assumida por comunidades e pela igreja diocesana, a aproximação entre clero e pastoral juvenil, as novas formas de evangelização, e pronunciou-se sobre a “nova maneira de ser Igreja”. Quanto a este ponto, o documento aponta três prioridades para a Igreja em Portugal: exigência da formação cristã, nova evangelização; e reorganização das comunidades cristãs.
Um conselheiro afirmou que a prática pastoral está invertida quando se baptizam pessoas sem estarem catequizadas nem evangelizadas, o que poderá ser típico dos tempos de cristandade, mas não da sociedade contemporânea, que preza a liberdade, nem dos tempos apostólicos, quando o baptismo era o cume de uma caminhada de evangelização e catequese. O comentário foi contrariado por outro conselheiro, que defendeu a prática do baptismo de crianças, com base na vontade dos pais, mas reforçado por outro que notou que, de facto, a prática sacramental tem de ser assumida numa base da liberdade. Pense-se, por exemplo, que um matrimónio, se não for feito com a liberdade e vontade da mulher e do homem é considerado nulo, e que o modelo de catequese da Igreja é a catequese de adultos. Da discussão, como noutros momentos, ficou patente que a iniciação cristã (com os sacramentos do Baptismo, da Eucaristia e da Confirmação) atinge muitas crianças e jovens, mas tal não significa que gere cristãos comprometidos, com uma visão humanista da vida e uma presença evangélica na sociedade – o que constitui um motivo de contínuo questionamento das práticas eclesiais.
Observou-se, por outro lado, que os documentos da Igreja não são lidos pelos cristãos, mas mais grave é que não entendam a linguagem litúrgica. “Como pode um cristão celebrar a fé, se não entende o que celebra?”, questionou um conselheiro, reforçando a necessidade de formação cristã. Outro conselheiro notou que há muitos sinais positivos na sociedade e que alguns deles – ex.: a preocupação com os objectivos de desenvolvimento mundial até 2015 – deviam ser acolhidos nas catequeses e noutros espaços.
No final da sessão, um conselheiro sugeriu que o processo de reflexão nacional culmine num concílio plenário português. Outro desejou: “Que isto [a reflexão nacional] não acabe tudo numa festa num pavilhão qualquer”.
D. António Francisco agradeceu o diálogo estabelecido e sublinhou uma recomendação de São Paulo: “Não apagueis o espírito. Não desprezeis as profecias. Examinais guardai o que é bom”.
J.P.F.
