Razão!… E solução?

O País saiu à rua! Não foi apenas uma geração que vê sistematicamente adiado – não será mais realista dizer: negado? – o seu futuro. Foram jovens e idosos, filhos, pais e avós, numa onda impressionante de sobressalto e angústia, num grito, em uníssono, contra a arbitrariedade, o abuso do poder, a incompetência e a falta de verdade da (des) governação de Portugal.

Não sei se os nossos Bilhetes de Identidade já contêm qualquer informação sobre filiação ou simpatia partidária. Certo é que se abrem caminhos avantajados para uns tantos, as mais das vezes de forma surpreendente e, não raro, patenteando incompetências que se cobrem com o nepotismo, enquanto a multidão espreita veredas e vielas, em busca de um negado raio de luz que permita ver o caminho do hoje e inspire confiança para o dia de amanhã.

Bem sabemos que, em muitas circunstâncias, se confundiu a liberdade com uma escolha selvagem de percursos formativos, sem nenhuma preocupação de aferir as qualidades próprias e as necessidades do bem público. Forjaram-se sonhos e expectativas de bem-estar egoísta, de lucros rápidos, chorudos e fáceis. Desorganizou-se, por completo, a oferta e a procura de trabalho, num desencontro incontrolado.

Também é verdade que o futuro se constrói com imaginação e inovação, com autonomia e iniciativa da sociedade civil, sem dependências desusadas da iniciativa estatal. E com capacidade de arriscar!

Mas, se é verdade que, “onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, também é facto que o escândalo é cada mais grave: para uns tantos, há pão e carros de luxo, vivendas faraónicas (algumas adquiridas em condições misteriosas, em suspeitas aquisições de imobiliário do próprio Estado), remunerações exorbitantes e ajudas de custo ou prémios de espantar…, enquanto a grande multidão rebusca o fundo do mealheiro para tentar pagar o pão e os medicamentos, o que com frequência não consegue. Aumenta a riqueza de uns poucos, enquanto a fome e a miséria avançam de forma assustadora.

Aqui é que se não entende uma gestão pública que continue a favorecer a incompetência, a desorganização, a injustiça. Como também se não percebe o complexo em relação à bata oficinal, às mãos calejadas, às alfaias agrícolas… Temos demasiados colarinhos “engomados”, demasiadas pastas de executivos, sem qualquer proveito para o bem da comunidade.

A crise é mundial, sabemos todos. Mas, se uns e outros alterarem mentalidades e comportamentos, o sobressalto esbater-se-á, a razão tornar-se-á sensata e os caminhos de solução hão-de surgir.