Recusa política – “grandes dependentes”

Questões Sociais Uma das três recusas políticas enunciadas nos artigos anteriores respeita às carências extremas. São exemplos significativos destas situações as crianças maltratadas ou abandonadas, as pessoas com deficiência, os «grandes dependentes» (por motivo de doença grave, deficiência profunda, acidente incapacitante, idade muito avançada…), casos de subalimentação, falta de habitação com o mínimo de condições, impossibilidade de aquisição de medicamentos, violência familiar… Na reflexão de hoje, limito-me apenas às pessoas em situação de «grande dependência».

Estas pessoas encontram-se distribuídas por grupos muito diferenciados, correspondentes a clas-ses, ou estratificações, sociais também distintas. No primeiro grupo, figuram as que têm acesso a lares, ou equipamentos semelhantes, de preço muito elevado, onde beneficiam de cuidados bastante completos e de elevada qualidade. Predomina aqui a iniciativa privada lucrativa; mas também alguns equipamentos do Estado e de instituições particulares de solidariedade social (IPSS) proporcionam condições de qualidade idêntica e a preços, geralmente, mais baixos.

Um segundo grupo de «grandes dependentes» é o dos que se encontram na suas casas, em condições condignas. A qualidade de vida é elevada e, em geral, reconfortante; no entanto, paira sobre eles a ameaça do desaparecimento do quadro familiar e dos prestadores de cuidados.

O terceiro grupo é constituído pelos «utentes» da generalidade dos equipamentos do Estado e das IPSS. Aqui, distinguem-se os que se encontram em unidades de «cuidados continuados» ou de «cuidados paleativos», e os que se encontram em lares comuns. Com base na informação disponível, pode afirmar-se que a qualidade do serviço prestado é, em geral, bastante razoável, e as importâncias a pagar são proporcionais aos rendimentos.

O quarto grupo corresponde aos «utentes» de lares privados de médio e baixo custo, distinguindo-se também dois subgrupos bastante diferenciados: os lares mais decentes e que dispõem das necessárias autorizações; e os que não dispõem de condições mínimas.

O último grupo de «grandes dependentes» é o dos que vivem nas suas casas, sem o mínimo de condições. Uns beneficiam de apoio domiciliário, enquanto outros se encontram abandonados pelo Estado e pelas instituições, em maior ou meno grau.

A recusa política perante esta gravíssima realidade social traduz-se, antes de mais, no desconhecimento a que ela se encontra votada, e que já foi referida em artigo anterior. Traduz-se depois na exclusão do acesso a medidas e programas específicos; o Estado ocupa-se dos «utentes» de equipamentos sociais, e abandona os que ficam de fora e que são, provavelmente, a maioria.

O abandono torna mais graves as situaçoes mais graves. E a verdade é que poderia ser evitado, através da congregação de esforços e de meios, a partir do nível local e das relações de proximidade.