Questões Sociais Regista-se uma contestação, bastante generalizada, contra as remunerações escandalosas, que chegam a atingir um e mais milhões de euros por ano. O assunto já foi aqui abordado, e salientou-se, a propósito, que a responsabilidade por esse escândalo se encontra muito difundida; ela abrange grupos sociais e correntes de opinião que poderiam dar contributos de natureza científica, política e ética para que ele fosse atenuado.
Pode afirmar-se que o escândalo parece remunerador (ou vantajoso) para muita gente, além dos beneficiários directos. Com efeito, beneficiam dele as «classes» médio-superiores que auferem remunerações superiores a cinco, dez e mais mi-lhares de euros por mês; os beneficiários destas remunerações vivem de consciência tranquila, e até pensam que deveriam ganhar mais, tendo em conta as super-remunerações. Persiste a tendência para cada cidadão considerar, como injusta, não a sua remuneração mas sim as que lhe são superiores.
Também tira vantagem do escândalo o egoísmo que viceja por toda a parte; muita gente entende que o egoísmo condenável não é o seu próprio, mas sim o de quem aufere importâncias exorbitantes. Tira vantagem, igualmente, a demissão do laicado cristão perante a acção sistemática a favor de um sistema económico mais justo e humano; em vez desse compromisso, opta pelo conformismo ou pela denúncia escandalizada ou pela «pregação» social… Tiram, ainda, vantagem das remunerações escandalosas os economistas e outros cientistas e técnicos, pró ou anti-capitalistas: Os pró-capitalistas fazem as suas análises mais ou menos favoráveis ao capitalismo e, em muitos casos, auferem remunerações super-compensadoras; os anti-capitalistas dispõem de um pretexto para a contestação sistemática e para a omissão na procura de caminhos alternativos. Dão a entender que as remunerações escandalosas e todo o sistema capitalista se configuram tão inaceitáveis que basta liquidá-los; tudo o que venha a seguir é, supostamente, melhor…
As super-remunerações são, efectivamente, escandalosas; mas a demissão e a simples gritaria contra elas são cúmplices do escândalo, e até vão beneficiando dele. Todo um campo vastíssimo de acção responsável nos interpela, com veemência.
