Ecos das Missões 2005 Senti-me bem-vinda, num país tão distante. Fui recebida como irmã por pessoas totalmente desconhecidas! Levava na bagagem muitos sonhos, a vontade de cumprir um desafio que me inquietava há bastante tempo e algumas interrogações inerentes ao facto de ser a primeira vez que participava numa experiência de voluntariado, a 10 000 Km da minha terra, da minha família e dos meus amigos.
Uma vez instalada na Delegação Salesiana, o trabalho, de que já tinha previamente conhecimento, afigurava-se como um grande desafio. Dada a minha formação académica, foi-me atribuída a tarefa de corrigir e adaptar as traduções (do Francês para o Português) de manuais escolares, num total de três conjuntos de 9 livrinhos, um do aluno e um do professor, para 3 anos lectivos, e 4 livros para grupos de adolescentes e jovens, subordinados ao tema “Para uma Educação nos Valores face ao HIV-SIDA” (a integrar na disciplina de Formação Humana). Teria ainda de preparar os “Powerpoints” que acompanham cada um dos livrinhos. Este material, em construção havia dois anos e meio, aguardava a revisão e conclusão que me propuseram, para ser aprovado pelo Ministério da Educação de Moçambique, publicado e aplicado às escolas salesianas, a partir do próximo ano. Por isso, considerei as tarefas urgentes, muito importantes para a congregação, e dediquei-me a este trabalho com entusiasmo. O resultado foi apresentado no encerramento de um seminário sobre o HIV-SIDA, no dia 26 de Agosto. Estive envolvida nessa apresentação e senti que tinha cumprido a minha missão, pois os materiais pedagógicos foram mostrados, publicamen-te, no dia da minha partida. Não posso esconder a minha satisfação por ter respondido, em tempo útil, ao repto que me lançaram.
Passei o dia-a-dia, em frente dos livros e do computador. Foram cerca de 24 dias de trabalho intenso, que começavam por volta das 6 da manhã. Tirando as horas das refeições, de partilha e de oração, os dias da semana e os sábados de manhã foram inteiramente ocupados com este trabalho. Cooperei ainda em algumas tarefas da casa e preparei uma refeição (bacalhau com natas) – uma pequena gratificação por um acolhimento tão fervoroso. Ao domingo, participava nas eucaristias de três paróquias diferentes; e depois nas reuniões de adolescentes/jovens.
Dois mundos em Maputo
Ao sábado e ao domingo, à tarde, descansava um pouco, aproveitando para contactar com as diferentes realidades da cidade de Maputo. E que distintas que são! De um lado, em frente ao Índico, há bairros bonitos, onde vivem pessoas abastadas, com organização e segurança apertada. Do outro, ainda no centro da cidade, há prédios de traça colonial que necessitam urgentemente de ser conservados, muitas pessoas a vender nas ruas, alguma miséria exposta e abundância de lixo. Na periferia, os bairros são ainda mais pobres, muito fechados, com ruelas e vielas labirínticas, casas com poucas condições de habitabilidade e onde se observa de tudo, desde a desorganização à falta de saneamento, luz e água potável, pobreza extrema e alguma marginalidade. No entanto, apercebi-me de que as pessoas levam a vida com normalidade, tentando ultrapassar as inúmeras dificuldades com que se deparam no dia-a-dia, sobrevivendo com ordenados muito baixos, lutando por um país melhor, onde haja menos corrupção e mais dignidade para todos. Vivem felizes, sorriem com muita facilidade, demonstram bem o calor dos povos africanos, o que me impressionou sobremaneira, pois dão-nos grandes lições de vida, a nós, ocidentais, habituados a lamentar-nos de tudo e de nada…
Os adolescentes e os jovens das paróquias ensinaram-me a observar atentamente, mostraram-me a sua força e garra, a esperança num país que ainda é o 7º mais pobre do mundo.
A preparação da festa das ordenações de um sacerdote e um diácono, na Delegação, juntamente com os jovens, os funcionários e até os padres, foi um dos momentos que não posso esquecer, pela cumplicidade vivida, a troca de experiências e os longos diálogos que mantivemos. Entre nós existe, agora, amizade, suportada pela troca de mensagens. A eucaristia das ordenações durou cerca de cinco horas, acontecimento impensável para um português que nunca viveu esta experiência! Contudo, a intensidade dos cânticos, das orações e a homilia do bispo de Maputo, tocaram-me profundamente. Isso mudou um pouco a minha forma de viver a eucaristia, aqui em Portugal, se bem que considere que nunca vamos conseguir vivê-la do mesmo modo, pois o calor humano e a alegria dos cantos e danças fazem esquecer o tempo, envolvendo-nos numa atmosfera indescritível.
Apelo a todos os que, como eu, tiveram ou têm o sonho de partir em missão, que não se deixem ficar no conforto de suas casas. “Façam-se ao largo”, como dizia João Paulo II. Só quem vive no terreno a experiência e sente as emoções de perto pode testemunhar vivências tão ricas. Por mais que digamos, nada se compara ao que assistimos e vivemos nos locais por onde passámos.
Daqui em diante, tenho por missão, não só manter o contacto com as pessoas com quem partilhei aqueles dias, mas também me comprometi a angariar fundos, na minha escola, para equipar uma das salas da nova Delegação Salesiana de Maputo, construída de raiz, e que será um Centro de Formação de professores/formadores. Quero continuar a trabalhar cá e, se possível, responder ao convite de voltar a Maputo, no próximo ano e por dois meses, para prosseguir o projecto, agora dentro de um quadro de formação de formadores.
Maria José Silva
