Resultado do referendo questiona a formação cristã dos portugueses

Cardeal-Patriarca em entrevista à revista Visão D. José Policarpo considera que a vitória do “Sim” no referendo ao aborto mostra a fragilidade, a pouca qualidade e a falta de acutilância da catequese da Igreja. “Nós não estamos a conseguir transmitir às gerações mais novas esta fidelidade aos valores do Evangelho. A catequese, a pastoral juvenil, o nosso trabalho com os jovens… Está tudo em causa. Eu tenho a sensação de que as nossas catequeses não fidelizam cristãos. E isso preocupa-me muito”, afirmou à revista Visão, de 1 de Março, numa entrevista conduzida por Filipe Luís e Manuel Vilas-Boas.

Reconhecendo que “há um crescente número de católicos cuja profissão de fé não coincide com a moral praticada”, o Cardeal-Patriarca de Lisboa realça que Portugal está perante uma “mutação cultural”, feita de individualismo e pragmatismo, na linha do que afirmaram os bispos portugueses (ver “O novo contexto da luta pela vida”, no Correio do Vouga de 28 de Fevereiro). “Estamos numa fase de «faz o que te apetecer que depois resolve-se». Há perigo da sida? Tem solução… Há uma gravidez indesejada? Faz-se um aborto!”, critica D. José Policarpo, sublinhando que nesta questão estão em causa, em primeiro lugar, valores humanos. “No princípio da discussão pública, lancei a ideia de que o aborto não é, fundamentalmente, uma questão religiosa. É uma questão humana e cultural”.

Igreja “derrotada” e “triste”

“A Igreja, mais do que derrotada, ficou triste com a decisão dos portugueses”, diz D. José Policarpo. “Continuamos convencidos de que a nossa é uma causa justa e recta, em termos de civilização”, afirma.

Interrogado sobre os católicos que votaram “sim”, o Cardeal Patriarca afirma que é abusivo pensar que estão excomungados, já que tal sanção canónica somente se aplica “às pessoas que fazem aborto ou contribuem directamente para ele”. Considera, no entanto, que o voto católico no “sim” representa uma derrota para a Igreja e mostra “uma fragilidade interna da comunidade católica”. “Quem fez profissão de fé católica e dela se afastou, pelo menos deveria parar para pensar nisso”, acrescenta.

O Cardeal-Patriarca mostrou-se favorável à Educação Sexual nas escolas, “desde que ministrada de acordo com a dignidade da pessoa humana, sem esquecer que os pais sãos os primeiros responsáveis”.