A esperança é, porventura, a palavra que hoje com mais frequência se repete, em tempos de uma crise aguda, que nos colocou a todos num estado de pessimismo e desalento, roubando energias necessárias para retomar o leme do futuro.
Valerá a pena revisitar a Carta Encíclica de Bento XVI “Spe Salvi”, como contributo a esta viragem urgente, alicerçando a esperança em horizontes seguros.
Reconhecendo que, no âmbito da matéria o progresso se faz por adição, isto é, que o conhecimento das suas estruturas e correlativas invenções tendem para um “domínio sempre maior da natureza”, quanto ao espaço “da consciência ética e da decisão moral, não há tal possibilidade de adição, simplesmente porque a liberdade do ser humano é sempre nova e deve sempre de novo tomar as suas decisões. (…) A liberdade pressupõe que, nas decisões fundamentais, cada pessoa, cada geração seja um novo início” – SS 24.
É evidente que as novas gerações podem haurir do tesouro moral da humanidade inteira. Mas podem também recusá-lo, como diz o Papa. É que o tesouro moral existe “como um convite à liberdade e como sua possibilidade”. O que significa que o bem-estar moral do mundo, a esperança consistente, se bem que precisem de estruturas renovadas, precisam também de “convicções que sejam capazes de motivar os seres humanos para uma livre adesão ao ordenamento comunitário. A liberdade necessita de uma convicção; esta não existe por si mesma, mas deve ser sempre novamente conquistada comunitariamente” – SS 24.
Mais ainda: considerando que a pessoa humana é sempre livre e que esta é sempre frágil, a “liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem. (…) Se houvesse estruturas que fixassem de modo irrevogável uma determinada – boa – condição do mundo, ficaria negada a liberdade humana e, por esse motivo, não seriam de modo algum, em definitivo, boas estruturas” – SS 24.
A vida não cabe em estruturas. A esperança não brota de novos governos, mais reduzidos ou menos reduzidos, com novas áreas de incidência. A esperança renasce do empenho com que cada geração, movida por convicções, dá o seu próprio contributo “para estabelecer novos ordenamentos de liberdade e de bem, que ajudem a geração seguinte na sua orientação para o recto uso da liberdade humana”… – SS 25.
As estruturas, o Estado como estrutura, só têm razão de ser – e terminam a sua missão – promovendo e dando suporte à construção de convicções que renovem interiormente os indivíduos como membros vivos da comunidade.
Aqui também, diz ainda Bento XVI, o cristianismo moderno, “apesar de ser grande o que continuou a fazer na formação da pessoa humana e no cuidado dos fracos e dos que sofrem”, limitou os horizontes ao concentra-se demasiado sobre o indivíduo e a sua salvação. A articulação e cumplicidade entre o desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento social são caminhos para o retomar da esperança.
