Retorno ao religioso, uma marca deste tempo

Muitas vezes, e para muitos, o retorno ao religioso é o simples retorno a uma nova opção pelos ídolos do tempo. Também se faz o encontro com novas formas religiosas exóticas, locais ou de importação. Não falta ainda quem regresse ao amor primeiro, que deixara quando as exigências do acreditar cederam a gostos pessoais e às seduções tentadoras do mais fácil. Foi o alijar de um peso que se trazia de longe.

A verdade, porém, é que o apelo ao religioso é grito que vai dentro de cada um de nós e não se cala. Apenas se disfarça em novas experiências, por vezes de vazio, que tentam responder-lhe e que não se verbalizam com facilidade. Santo Agostinho, falando da experiência pessoal de um coração inquieto, diz que este, esgotado por tanto procurar, só sossegou ao dar de caras com a resposta definitiva: o Deus que ia dentro dele.

O ateísmo torna-se militante quando o ateu inconformado sente a perda daquilo que precisa e, por via de uma tensão dolorosa, luta entre o não querer e o não poder dispensar. É então que o amor deriva para a indiferença, o desprezo e até para o ódio.

Nos últimos tempos, jornais e revistas, diários e semanais, têm publicado reportagens de grupos religiosos novos ou só agora conhecidos. Uns dedicam-se ao culto da natureza, outros celebram a sua crença na clandestinidade de uma moradia da cidade, outros, ainda, dedicam-se a rituais iniciáticos, onde o sexo, livre e promíscuo, se torna uma obrigação sagrada.

O retorno ao sagrado é hoje estudado como uma forma de regresso ao passado que marcou a vida em família, em comunidade de livre opção, ou por relações pessoais de especial sentido.

A crise de valores consistentes, que um secularismo laico vai destruindo de modo progressivo e inexorável, esvazia de sentido a vida pessoal e comunitária. Reside aqui o preâmbulo do naufrágio.

Todo aquele que se sente a naufragar luta por todos os meios, grita e pede socorro, lembra-se de quem o pode ajudar, volta à fé que julgava perdida, invoca Deus e os santos… Se consegue a sobrevivência, será, para sempre, uma pessoa humilde e agradecida, logo fala de milagre e não cessa de contar a todos a sua impotência, mas, também, a sua confiança e a graça do bom êxito, quando tudo parecia já perdido.

O mar da vida, ao lado de coisas maravilhosas, tem hoje mais perigos e escolhos que o mar imenso de água, que fascina e atrai, incute sempre respeito pela sua magia, traduzida em força, fecundidade, beleza e serenidade, pelo segredo de cada onda e maré.

Hoje soçobra-se mais no mar encapelado da vida. A cada canto se encontram sereias com melodias tentadoras, tudo convida ao mais fácil e agradável. Facilmente se diz que os perigos ou não existem ou são coisas que só afectam crianças desprevenidas e adultos medrosos…

É neste mar sem limites e cheio de encantos que um dia, numa paragem inesperada, que pode também ser progra-mada, surge ao vivo a experiência das limitações e fraquezas que nos acompanham, mas, também, das riquezas interiores que são fonte de libertação.

O vazio, então, pede resposta e já não se contenta com uma resposta qualquer. Exige algo que não iluda, nem desiluda, exprima seriedade, mesmo se carregado de novas exigências, ainda maiores do que aquelas que antes fizeram desertar do caminho.

Nem sempre o retorno se dá ao Deus que nos criou divinos e da sua estirpe, com marcas próprias e únicas que nos acompanham desde o sei materno.

O retorno dá-se, por vezes e para alguns, a uma religiosidade mais privada, que reage a formas institucionais. Mas a escada sobe-se degrau a degrau. Quem se decidiu subir e a procurar já é atraído pelo Alto.

O retorno ao religioso só não é possível aos indiferentes, que apenas olham o chão, e aos satisfeitos de si mesmos, que dizem não precisar de nada, nem ninguém.