A Árvore de Zaqueu Com que emoção, S. Pedro nos quer apresentar este retrato! (1.ª leitura). Note-se que já no tempo dele, vai para dois mil anos, muitas das figuras e rostos teriam sido criativamente elaborados – até os historiadores mais «objectivos» se preocupavam com iniciar os leitores no pouco ou nada visível mundo dos sentimentos e do sobrenatural envolvente. (Mas o que são as interpretações actuais sobre uma série de «factos»?).
S. Pedro está de pé, com os onze apóstolos (Matias já tinha ocupado o lugar de Judas), e certamente outros discípulos, entre os quais deveria ser notável «a quota» feminina. A um cantinho do grupo, os dois discípulos de Emaús, de mochila e bordão, com o ar sorridentemente atordoado por terem viajado com Jesus sem serem capazes de o reconhecer.
Espantosamente, a figura principal aparece tão colorida e endeusada que é mesmo preciso que nos digam que se trata de Jesus. Com efeito, e logo desde os primeiros tempos, é apresentado muitas vezes com a nobreza de um rei superior aos outros reis, «sentado à direita de Deus», o «Senhor dos Senhores». A arte e a própria teologia (quando se perde em demasiadas especulações), mesmo se com as melhores intenções, tornaram difícil descobrir a figura simples, de autoridade natural, e tão dedicada à causa da humanidade, que soube «amar até ao extremo» (João 13,1).
S. Pedro retocou a imagem de Jesus com a paleta mística do Antigo Testamento – no que tinha mais do que razão, pois não se compreende a linguagem e simbolismo dos livros do Novo Testamento sem o conhecimento básico do meio cultural em que Jesus nasceu.
Uma ideia chave na religião judaico-cristã é a de «desígnio de Deus»: que não se pode distinguir do processo temporal do universo, e particularmente do «universo espiritual» – o universo dos seres capazes de liberdade. É dentro deste desígnio que todos os seres são chamados à existência e particularmente à vida.
Lucas põe na boca de S. Pedro uma releitura do salmo 16 (8-11) atribuído ao rei David. Aplica-o a Jesus Cristo, o perfeito «fiel de Deus», que será liberto do sofrimento e da morte. Note-se que o «Messianismo», no sentido geral de um futuro esperançoso, em que a humanidade acabará por sair vitoriosa da sua constante luta contra o mal, é logo formulado no Livro do Génesis (3,15), sob a imagem da descendência de Adão que esmaga a cabeça da serpente. Quando se instituiu a realeza, o rei passou a ser imagem viva da justiça de Deus – David e seu filho Salomão terão um descendente «salvador» com poderes sobre-humanos (Isaías 9,5), mas humilde, portador de paz, e «rei» só na medida em que defende o «reino de Deus».
A este homem tão livre e coerente na defesa duma vida mais autêntica e justa para todos, que aceitou sofrer e morrer, como consequência das suas posições em palavras e actos, deu-lhe Deus «a Glória» junto de si – o que, na tradição cristã, significa que «Deus ressuscitou Jesus» (1.ª e 2.ª leituras).
A «Glória de Deus» é pois a Vida perfeita – uma realidade impossível de retratar. Por esta e outras razões, não podemos idolatrar os retratos e muito menos ver nelas «modelos» rígidos para o futuro – o que os tornaria ridículos. Os «retratos de família», sejam eles quais forem, mas de modo especial os da «família de Jesus» (formada por todos aqueles que meditam sobre o que é «a vontade de Deus» – Mateus 12,50), têm lugar especial à volta da lareira – onde arde sem descanso o fogo da vida, alimentado pelos sentimentos de carinho e harmonizando passado, presente e futuro. Se o passado nos fala, é para nos ajudar a ser livres do que está na moda ou do que agrada a quem detém o poder; a saber detectar o bem no meio do mal, e a ganhar experiência para eliminar as cores falsas da realidade.
Para maior consolação, se descobrirmos, entre a confusão dos que se fizeram ao retrato, uns tantos vultos de discípulos mal amanhados – é porque fomos retratados na perfeição…
Manuel Alte da Veiga
